quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

A Estrada Lima Duarte – Conceição de Ibitipoca

 

No início do século XIX, quando Lima Duarte embrionava como povoação, a vida girava em torno das sedes de fazendas, as quais concentravam a população, as atividades produtivas e economicas. Os caminhos então procuravam atender aos interesses dos fazendeiros, interligando as sedes de fazenda aos povoados e às estradas reais, de onde se podia atingir a sede municipal (Barbacena), a sede da Comarca (São João Del Rei) e a capital do Brasil (Rio de Janeiro). Por estes caminhos transitavam carros de bois, tropas, pessoas à pé e montadas.

            A chegada do primeiro automóvel, em 1914, pelas mãos de Manoel Delgado da Silva, acrescentou mais um meio de transporte, demandando por novos caminhos. Contudo, somente apartir de 1931, o Prefeito Alfredo Catão abriria a Estrada Lima Duarte a Juiz de Fora, passando pelos Bahias, obra que executou, com recursos próprios até a divisa dos dois municipios, em Valadares, finalizando-a em 1934.

            Em 1937, coube ao interventor nomeado Nominato Duque, levar a cabo a abertura da estrada para automóveis de Lima Duarte a Conceição de Ibitipoca e Santana do Garambéu. Aproveitando o leito abandonado da ferrovia nas imediações do bairro Beira Rio, começou por ali a nova estrada, seguindo pela margem esquerda do Rio do Peixe até próximo à foz do Ribeirão do Salto, cujo vale seguiu, até Conceição de Ibitipoca.

    Uma ponte com tabuleiro e guarda-corpos de madeira, apoiada em pegões de pedra, foi erguida na localidade de Salto, sob orientação do Engenheiro Pedro de Paiva Fartes. A nova estrada foi alargada e dotada de sistema básico de drenagem de águas pluviais, como se vê ainda em vários trechos. Por essa estrada podia-se ir, de Ford T, em três horas, de Lima Duarte à Santana, ou como bem registrou de informações orais o pesquisador limaduartino Ronisch Baumgratz “sair de Lima Duarte e almoçar no Jambeiro…”

Ponte sobre o Ribeirão do Salto
Acervo Afranio de Paula

           Nas décadas seguintes a estrada seguiu recebendo conservação e ajustes. Em 1949, no mandato do Prefeito Olimpio Otacílio de Paula, é construída em concreto armado a ponte sobre o Rio do Peixe no Bairro Beira Rio. Em 1960, pela Lei Estadual 2121, a estrada foi encampada pelo Estado de Minas Gerais, abrindo portas para obtenção de recursos. Em 1962, no segundo mandato do Dr. Domingos Octaviano Lima, a ponte do Salto foi modernizada, sendo o tabuleiro de madeira, longarinas e guarda corpos executados em concreto armado. Algumas pontes menores também foram executadas em concreto nessa época, e cada administração seguiu, dentro de suas possibilidades, executando manutenção e consertos.

Ponte Beira Rio
Acervo Rafael Ferreira de Paula

            No governo Liandyr Guimarães, em 1976, a estrada passa por um processo de modernização, com melhoria do traçado, alargamento, construção de muitas passagens de águas pluviais e extensão da estrada até a Lombada e o Pião, dentro do Parque Estadual de Ibitipoca.

            As obras de pavimentação foram iniciadas em 1994/1995, no segundo mandato de Carlos Alberto Barros, quando o trecho de serra, na chegada de Conceição de Ibitipoca foi calçado com pedra tosca sem rejunte, recebendo meio fio e sistema de drenagem.  Um segundo trecho, do Engenho até o Caeté foi calçado com elemento travado em 2007 no primeiro mandato de Geraldo Gomes.

            Nos anos seguintes o Estado de Minas Gerais assume de fato o controle da estrada, fazendo-a passar por uma de suas piores fases, já que nenhuma obra de vulto foi realizada e a manutenção se mostrou insuficiente, obrigando cidadãos e mesmo a Prefeitura a executarem acões corretivas e emergenciais.

            Em 2020, no terceiro Geraldo Gomes, com recursos estaduais, são retomadas as obras de pavimentação da saida de Lima Duarte até a Fazenda do Lãozinho, prolongadas em 2021, já no primeiro mandato de Elenice até o Laticinio Serra Negra. Em maio de 2023 foi iniciada a pavimentação do trecho entre Laticinio Serra Negra e o Caeté, excetuando trechos nas localidades de Agua Fria e Laranjeiras, no aguardo de definição de questões legais e burocráticas para execução, obras que se prolongam até nossos dias.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Mudanças na cidade na década de 1960


            Na década de 1960, alguns fatos produzem significativas mudanças na conformação do sitio urbano de Lima Duarte.

            Acentua-se na região o exôdo rural, com significativa transferencia de população para a zona urbana e suburbana, adensando os bairros existentes na época e provocando o surgimento de novos logradouros e loteamentos, como o bairro Recanto Alegre, Nova Era, Lago Azul, Grota, Esplanado e Várzea.

            Dois fatos também contribuíram de forma significativa para alterações na forma da cidade: a abertura da rodovia federal trecho Juiz de Fora a Caxambu e  a extinção do ramal ferroviário.

            A partir de 1964, a  abertura da BR 32, obra federal inaugurada em 1978 depois denominada como BR 267, deslocou o eixo da cidade, colocando em abandono a antiga estrada dos Bahia e a Estrada Velha para Olaria e Bom Jardim. A rua Alfredo Catão é aberta nessa época, interligando o eixo da Rua José Virgílio ao eixo da Paradinha, tornando-se logo uma das mais importantes ruas da cidade.  Da necessidade de interligar a cidade à “Estrada Nova”, abre-se uma rua entre esta e a Rua Sete de Setembro, originando o eixo a partir do qual se desenvolveria o Bairro Piúna. No mesmo sentido, abre-se a Rua Antonio Duque Filho, conhecida como Rua do Capim. A antiga Estrada do Piquete, por “cortar” a BR 267, ganha importância nessa época também, gerando a base do que se tornaria no futuro o Bairro Nossa Senhora das Graças. Ao lado do Bairro Afonso Pena, surge o embrião da Vila Belmiro, a partir de loteamento de antiga área de pasto da Fazenda da Fábrica, isolada pela passagem da BR 267.

            A extinção do Ramal de Lima Duarte da Estrada de Ferro Central do Brasil, ocorreu em 1968, com retirada dos trilhos e dormentes em 1972. O leito, ou  a Linha, como é conhecida popularmente, bem da União, uma vez abandonado, foi aos poucos sendo ocupado, gerando ruas como a Geraldo Magela de Paiva, Trinta de Outubro, Francisco Valadares e Avenida Centenario em seu trecho original, entre a Paradinha e a Rua Geraldo Magela de Paiva.

            Na Barreira, a ocupação de uma encosta gera o Morro do Querosene, batizado oficialmente de Bairro Satélite, ligado ao bairro Santa Teresinha por um prolongamento da Rua Maria Tomé. A área da  entre o atual trevo do CAPS e o Pontilhão do Albergue foi aproveitada pela Prefeitura como depósito de lixo urbano, ali queimado, diariamente. Somente mais tarde, o Poder Publico faz concretar uma laje sobre o pontilhão e estende e abre, até a Barreira, a Avenida Centenario.

            Na região do Batatal, a “Linha” passa a ser utilizada como forma de ligação à cidade, uma vez que a partir de 1972, a Prefeitura remove o lastro de britas deixado pela ferrovia. As margens do leito vão sendo ocupadas, facilitadas pelas doações de terrenos feitas pela Prefeitura, que obtém mais tarde a guarda da faixa de dominio da ferrovia, da estação da Barreira à divisa com Juiz de Fora em Valadares,adensando o povoamento da região.

            Adiante do Bairro Cruzeiro, se desenvolve nessa época o Bairro Santo Antonio, no entorno do Campo do Vila. Começa o adensamento do bairro Poço da Pedra, ocupando o leito ferroviário abandonado e a margem da Estrada Velha para Olaria, facilitada por aquisição a preços mais acessiveis, doações e mesmo posses.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Os bairros São José, Santa Teresinha, Beira Rio e Matadouro

 

 

            A região do atual Bairro Cruzeiro, começou a ser mais densamente ocupada por volta de 1939, nas obras da rodovia aberta pelo Governo do Estado de Minas Gerais, ligando Lima Duarte a Olaria e Bom Jardim de Minas. Essa rodovia corresponde hoje às ruas Clemente Armando Moreira e Rua do Horto, atravessando o Rio do Peixe por uma ponte de madeira, seguindo pela margem esquerda via os atuais Bairros Santo Antonio, Poço da Pedra e localidade de Perobas.

            Essa estrada aos poucos, foi sendo ocupada em suas margens, gerando o embrião da Vila São José, que depois se torna Vila Cruzeiro, dado ao cruzeiro ali erguido em concreto em 1952, substituindo um antigo, em madeira.

            Dessa rua, um antigo caminho descia ao Rio do Peixe, atravessando-o em direção à Fazenda Ponte Funda, de onde se seguia para São José dos Lopes, Ibitipoca e Mogol, atual Rua Getulio Vargas.

            A “Rua de Baixo”, surge no prolongamento da ferrovia em 1944, com destino a Bom Jardim a partir do Triangulo de Reversão(onde estão hoje a Estação de Tratamento de Aguas e sede do Clube do Cavalo). Com o abandono das obras, seu leito é ocupado, gerando uma nova rua. As demais surgem posteriormente.     

            O bairro Santa Teresinha surge a partir de 1951, quando a população católica decide erguer uma capela dedicada à Santa Teresinha do Menino Jesus, no chamado “Pasto dos Alves”, pertencente ao Coronel José Alves. A primeira rua (atual 31 de Março),ligava a capela à Rua da Estação (atual Benvindo de Paula), sendo acrescida de uma transversal (Maria Tomé), ambas depois prolongadas.

            A partir de 1930, as obras abandonadas da ferrovia, até próximo ao atual Campo do Santa Teresinha, se tornam parte da nova estrada para Ibitipoca, São José dos Lopes e Mogol. Uma ponte em madeira é construída, fazendo a ligação da cidade com este novo caminho. Às margens desse caminho se adensa a cidade, gerando a Rua General Setembrino de Carvalho (atual Rua Joaquim Otaviano), que aos poucos vai sendo alargada.

            Neste processo de modernização, a velha ponte de madeira é feita em concreto armado em 1949. Neste mesmo ano, a prefeitura adquire imóvel e terreno na Estrada para os Mamonos, transferindo para lá o Matadouro municipal, que até então funcionava no Bairro Matosinhos.

            Na década de 1970, obras de alargamento da Rua Joaquim Otaviano provocam a remoção de alguns moradores próximo à ponte, sendo transferidos para a área da Municipalidade contígua ao Matadouro, dando ao núcleo original do Bairro Matadouro. 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Os bairros de Lima Duarte até 1939



            Formado o Centro, ao redor da Matriz de Nossa Senhora das Dores, começaram a nascer os primeiros bairros.

            Apesar de não serem as vezes, oficialmente reconhecidos como tal, são denominados pela população desde tempos antigos, fazendo parte da nossa cultura local.

            Matosinhos foi o primeiro dos bairros, formado próximo ao Centro, na antiga entrada da cidade. A origem do nome permanece uma incógnita, sendo impossível não fazer um paralelo, a ser pesquisado, com outros Matosinhos existentes em Minas, todos derivados do Matosinhos no subúrbio de Braga em Portugal, região de origem da família Delgado.

            Em seguida, nasce o bairro do Patrimônio, em terreno comprado pela Câmara Municipal de Lima Duarte para aforamento, entre 1895-1897. A iniciativa coube ao Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal Coronel José Virgílio de Paula. O terreno pertencia à Paróquia de Nossa Senhora das Dores, sendo conhecido popularmente como “Patrimônio da Santa”, nome popular que recebiam as terras da Igreja Catolica. O bairro, por isso, acabou por receber esse nome.

            O Alto de São Francisco tem origem com a construção da capela de São Francisco de Assis das Chagas, por iniciativa de Francisco Delgado Mota, benta em 1905. A primeira rua de acesso, descia em direção ao Largo, na frente da capela, aquela que hoje termina no Escadão. Com a abertura da estrada de ferro, naquele trecho, em 1923, foi cortada, sendo uma outra via de acesso aberta, gerando a atual Rua Apolo XI, seguida, na década de 1960, pela abertura da Rua Cel. Elisiario.

            A Barreira nasceu em meados da década de 1910, como forma de acesso do centro à estação ferroviária. De início, havia apenas a atual Rua Jacintho Honório, com poucas casas, quase que apenas um caminho de acesso à fazendas e localidades próximas. Uma rua nova foi aberta no local, depois de esgotados os brejos (a barreira), reta e larga, a primeira rua planejada da cidade. Recebeu popularmente o nome de Rua Nova, antes de se chamar oficialmente Avenida Barão do Rio Branco. A rua antiga, por isso, foi chamada de Rua Velha. O nome do bairro vem-lhe dos brejos em que se assenta, com chuvas gerando muito barro.

            Em seguida, nos primeiros anos de 1900, surge a Vila Afonso Pena, um prolongamento do Patrimônio, separado deste na década de 1960 com a passagem da BR 267. A criação do bairro foi uma iniciativa de João de Deus Duque Neto, em terras de sua propriedade, oferecendo lotes a amigos e favorecendo-lhes a aquisição. O nome é uma homenagem ao ex-Presidente da Republica, o mineiro Afonso Maria Moreira Pena, falecido em 1909

            No entorno da Parada Deocleciano Vasconcelos erguida em 1925, nasceu o bairro Paradinha. Antes, era apenas um pasto de várzea, sujeito a alagamentos, drenado e aterrado pela Central do Brasil. Era uma área de muito movimento, porta de entrda da cidade, favorecida pelo movimento de carga e descarga de mercadorias, e embarque e desembarque de passageiros.

            Essa era a configuração da cidade até por volta de 1939.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A Eleição empatada e anulada

             Em 1937, tomou posse a nova Câmara Municipal de Lima Duarte. Pela Legislação Estadual da época, cabia a Câmara Municipal escolher o novo prefeito. A Câmara Municipal era presidida por Manoel Oscar da Silva, tendo como secretário Manoel Otaviano Ferreira. Os demais vereadores eram Sidney Rodrigues Moreira, Nominato de Paiva Duque, Antonio Duque Filho, Dr. Olavides de Oliveira, Antonio Alves de Paula, Joaquim Antonio de Oliveira, Avelino Batista de Oliveira, Galileu Theolino da Cunha, Anísio de Assis Àvila e Washington Erotides de Ávila.

            Apresentaram-se como candidatos a Prefeito o Coronel Camilo Guedes de Morais e o escrivão Tasso de Souza. Apurados os votos, verificou-se empate. Como a lei antiga prescrevia nestes casos, assumiria o candidato mais idoso, levando a melhor o Cel Camilo Guedes de Morais, que assumiu a Prefeitura de Lima Duarte em fevereiro de 1937, sucedendo a Moacyr Catão.

Camilo Guedes de Morais


Camilo Guedes de Morais nasceu em Varzea do Carmo (atual Valadares) em 1857, filho de José Guedes de Moraes e Maria de Moraes. Na época a localidade pertencia a Rosario de Minas, integrando o Municipio de Barbacena. Posteriormente o distrito integraria o municipio de Juiz de Fora, passando em 1938 a Bias Fortes, retornando a Juiz de Fora em 1948

            Proprietário de terras, tornou-se logo prestigiado líder político na região, exercendo inclusive a função de vereador à Câmara Municipal de Juiz de Fora, de 1892 a 19895. Grande benfeitor da localidade de Varzéa do Carmo, solicitou e viu atendido o pedido de construção de uma estação ferroviária próxima à sua fazenda, tendo inclusive custeado a construção do prédio.A estação acabou sendo inaugurada em 1º de Maio de 1924, com o nome de Engenheiro Navarro, logo em seguida sendo denominada Valladares, em homenagem ao deputado federal Francisco Valladares, grande defensor e batalhador pela ligação ferroviária de Juiz de Fora a Bom Jardim, o qual aceitou a homenagem sob protestos, solicitando por telegrama ao Ministro da Viação que fosse dado ao prédio o nome do Cel Camilo Guedes, por seu mérito inquestionável. A homenagem ao grande líder acabou sendo feita na Escola do distrito, que leva o nome de Camilo Guedes de Morais.

            O Cel. Camilo Guedes, no entanto, teve um mandato curto. Meses depois o Tribunal Eleitoral de Minas Gerais anulou todas as eleições de prefeitos confirmadas a partir de resultado de desempate por idade, encerrando o mandato de Camilo Guedes tres meses depois da posse. ano de 1937 foi dos. Agitações políticas e sociais, decorrentes da insatisfação politica com as atitudes de Getúlio Vargas, colocaram o país em desordem, criando o pretexto para que Getúlio Vargas decretasse o Estado Novo,  fechasse o Congresso e ditasse uma nova constituição pelo Radio, em 10 de novembro de 1937.

            Com o Estado Novo, os municípios passaram a ser comandados por um Interventor nomeado pelo Interventor Estadual, o qual era assessorado por um Conselho Consultivo, que substituia a Camara Municipal eleita. Em Lima Duarte foi nomeado pelo Interventor do Estado de Minas Gerais, Benedito Valadares o Dr. Nominato Duque, que permaneceu à frente do cargo de 1937 a 1945.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

A ESTRADA VELHA PARA BOM JARDIM

    No início do século XX, a Zona da Mata e o Sul de Minas eram as duas mais ricas regiões do Estado de Minas Gerais. Apesar disso a ligação entre as duas regiões era precária. Não havia ligação por ferrovia e as rodovias eram precárias. Do lado da Zona da Mata o município mais próximo do Sul de Minas era Lima Duarte, que fazia divisa com Bom Jardim do Turvo na época distrito do Turvo, atual Andrelândia. Em Bom Jardim já chegavam nessa época os trens da Rede Mineira de Viação, que seguiam até varias cidades do Sul de Minas. Ligar Lima Duarte a Bom Jardim era então, o trajeto mais fácil e eficiente, diminuindo as viagens de tremde dois dias para seis horas em media. 
    Nesse contexto nasceu o Ramal de Lima Duarte, com o objetivo de ligar Benfica (Juiz de Fora) a Bom Jardim do Turvo (Andrelandia). As obras tiveram inicio em 1911, paralisaram em 1914, foram retomadas em 1918 e aos trancos e barrancos os trilhos chegaram a Lima Duarte em 1925. O prolongamento da ferrovia até Bom Jardim não ocorreu como se esperava, fazendo com que as sociedades lima duartina e juiz forana buscassem outras formas de efetuar a ligação tão pretendida. 
    Por volta de 1935, o Engenheiro Moacyr Catão começou uma campanha em Belo Horizonte para que a ligação fosse completada com uma estrada para automoveis, de construção mais simples e rápida. Escreveu artigos na imprensa demonstrando a importância da ligação e seus benefícios para a economia do Estado. Buscando apoio politico para a causa em Lima Duarte e Juiz de Fora, formou-se uma comissão que levou a proposta ao então Interventor Benedito Valadares, governante de Minas Gerais. O governador mostrou-se sensível à proposta e deu inicio aos tramites. Após um tempo para ajustes e garantia de apoio do governo federal, marcou-se uma data para abertura das obras da rodovia. 
    No dia 13 de julho de 1937, partindo da Estação Central de Juiz de Fora, o governador e sua comitiva, embarcaram às 13 horas em trem especial para Lima Duarte. Em Penido e Valadares, localidades do percurso, foram prestadas ao chefe do governo Mineiro expressiva e vibrante homenagem. Em Lima Duarte, a população em massa acolheu o governador e comitiva, com estrondosa manifestação de regozijo. A praça do Rosário, em homenagem dos Poderes Legislativo e Executivo municipais, passou a ser denominada Praça Governador Valadares, com descerramento e inauguração de placa. Nos atos de inauguração das obras da rodovia, falaram aos cidadãos o Governador Benedito Valadares e o comandante da 4ª região militar General Franco Ferreira, que salientaram a necessidade do serviço em apreço em benefício dos altos interesses de Minas. 
  
    As obras seguiram lentamente, por vários motivos. Certamente um deles, foi a má aplicação dos recursos públicos, denunciada em vários órgãos da imprensa na região em setembro de 1938. A partir de 1939 foram executadas as obras de arte, como assinalam as datas gravadas em baixo-relevo, nas faces das obras de arte da estrada, junto com a sigla S.V.O.P. (Secretaria de Viação e Obras Públicas) A estrada, partindo do Pontilhão da Estrada de Ferro Central do Brasil, conforme planta existente no Arquivo Publico Mineiro, seguiu pelas atuais ruas Manoel Otaviano Ferreira, Benvindo de Paula e Clemente Armando Moreira, atravessando o Rio do Peixe numa ponte de madeira que havia ao final da atual Rua do Horto, abaixo da atual Primeira Ponte. Transposto o rio, circulava acima do campo do Vila, seguindo pela encosta da margem esquerda, rio acima, contornando pelo Cai N’Àgua e Fazenda de José Ribeiro de Paiva (onde foi erguido um belo bueiro). Cortava o atual bairro Poço da Pedra pela rua de baixo, na atual Rua Maria Valéria, seguindo até Perobas. Aí, numa rocha, à beira da estrada, ficaram gravadas as iniciais do nome do Engenheiro responsável pelas obras, V.A.F. (Vasco de Azevedo Filho), funcionário da Secretaria de Viação e Obras Públicas de Minas Gerais. Também em Perobas se fez construir uma fonte de água potável, por meio da captação e canalização de uma nascente de água potável, bem na entrada do povoado, sentido de quem vem de Lima Duarte. Essa fonte também traz as inscrições S.V.O.P. e o ano de 1939, grafado em baixo relevo numa cartela. Adiante de Perobas, a estrada passava pelo campo do Perobas, atravessava para a outra margem do Ribeirão Rosa Gomes logo após o campo, retornando para a esquerda até ganhar de novo o vale do rio do Peixe e tomar o vale do Ribeirão Rosa Gomes um pouco antes do Cebola. Ali a rodovia subia pela esquerda, ao lado da casa do Cebola, para se desviar das instalações da Usina Hidrelétrica que abastecia Lima Duarte de energia, inaugurada em 1918, passando bem no alto. Sempre desviando dos rios, para evitar a construção de pontes, chegava a Olaria pela parte baixa, atual Bairro Santa Marta. De Olaria a Estrada Velha seguia rumo São Sebastião da Vista Alegre (Quintilianos). Um pouco antes da entrada desse povoado, voltou-se para as bandas da localidade de Peleja, seguindo Via Vila Tomé em direção à Tabuão, cujo rumo abandona para se dirigir à Serra do Rio do Peixe e atingir Bom Jardim de Minas.
    As obras seguiram lentamente, com constantes paralisações, sendo inaugurada somente em 30 de
João Cancio, Dilermando Cruz,
Olimpio Otacílio e Assis Rodrigues
outubro de 1949, em Bom Jardim, ao tempo do Governador Milton Campos. A cerimônia contou com a presença do Secretário de Finanças do Estado de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, e do Secretário de Viação José Rodrigues Seabra, o representante do Comandante da Quarta Região Militar de Juiz de Fora, os prefeitos de Santa Rita de Jacutinga João Câncio de Oliveira, de Juiz de Fora Dilermando Cruz Filho, de Lima Duarte Olímpio Otacílio de Paula, de Bom Jardim de Minas Assis Rodrigues da Silva e de Andrelândia Simplício Dias Nascimento, além de representante do Prefeito de Carvalhos e grande massa popular. A rodovia, não pavimentada, foi executada segundo os parâmetros técnicos vigentes na época, sendo apenas compactada e ensaibrada, dotada de 7 metros de pista de rolamento, com mão e contra mão, sistema de drenagem de águas pluviais, pequenas obras de arte e inclinação controlada, conforme planta elaborada pela Seção Técnica da Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado de Minas Gerais. 
    A rodovia Lima Duarte a Bom Jardim aos poucos foi perdendo a importância. No trecho entre Lima Duarte e Olaria teve vários trechos abandonados depois que o leito da ferrovia foi abandonado e passou a ser utilizado como estrada. No final da década de 1960, a BR 267, moderna e asfaltada, toma-lhe de vez a primazia, passando a ser utilizada como estrada vicinal. 
    Um triste fim para uma rodovia tão sonhada...

sábado, 18 de maio de 2024

LIMA DUARTE e seus distritos.

 

            A formação do território do municipio de Lima Duarte, como o conhecemos hoje, passou por muitas mudanças, anexações e desmembramentos. Até 1881, quando ainda era chamado de Distrito do Rio do Peixe, integrava o território do município de Barbacena, junto com outros distritos vizinhos, como Conceição de Ibitipoca, Santana do Garambéu, Rosário do Curral (atual Rosário de Minas), Quilombo (atual Bias Fortes), dentre outros. Por essa época, por meio de diversas leis, viu transferido a seu território uma grande porção de terras, desde a Serra da Rancharia ao Ribeirão Rosa Gomes e da Várzea do Brumado às localidades de Macacos e Caeté ao pé da Serra de Ibitipoca, antes pertencentes ao distrito de Olaria, municipio de Rio Preto. Essas terras estão hoje distribuídas parte no território de São Domingos e parte no território de São José dos Lopes.

            Tornado sede de município em 1881, o então distrito do Rio do Peixe teve anexado a seu território o distrito de Conceição de Ibitipoca, compondo os dois o território municipal inicial.

            Em 1884, o munícipio do Rio do Peixe recebe o nome de Lima Duarte, é instalado e tem anexado ao seu território o distrito de Santana do Garambéu, criado em 1836 e também pertencente à Barbacena. Assim permaneceu até 1891, quando na revisão territorial feita pelo governo Republicano, foi anexado o distrito de São Domingos da Bocaina, conforme preceitua a Lei Estadual 2, de 14 de setembro de 1891

            São Domingos da Bocaina é distrito pelo menos desde 1864. Havia pertencido antes a Rio Preto. Com a transferencia da sede do municipio de Rio Preto para a Vila Bela do Turvo (atual Andrelândia) em 1864, passou a integrar o municipio do Turvo. Em 1870 o municipio de Rio Preto é desmembrado do Turvo e o território de São Domingos da Bocaina retorna ao município de Rio Preto.

            Em 1923 o senador estadual Alfredo Catão, atendendo a pedido dos moradores, apresentou e viu aprovada a Lei Estadual 843, que transferiu à Lima Duarte e anexou ao seu território os distritos de Santo Antonio de Olaria e Pedro Teixeira.

            Santo Antonio de Olaria era distrito desde 1872, pertencendo a Rio Preto, sendo a partir de 1938 denominado apenas de Olaria. Pedro Teixeira era distrito desde 1911, quando foi desmembrado do território do distrito de União (Bias Fortes), ambos pertencentes à Barbacena.

            Em 1953, o deputado estadual Lourival Brasil Filho apresentou o projeto de lei que elevava à categoria de distrito o povoado de São José dos Lopes, o qual foi aprovado, acrescentando-se mais um distrito ao municipio.

            Em 1962, em nova reorganização geográfica e política do estado de Minas Gerais foi aprovada a Lei 2764, de 30 de setembro de 1962, que desmembrava de Lima Duarte e elevava à categoria de sede de municipio as vilas de Olaria, Santana do Garambéu e Pedro Teixeira. Lima Duarte então sofre diminuição em sua área territorial, passando a contar com os distritos da Sede (entorno da cidade), Conceição de Ibitipoca, São Domingos da Bocaina e São José dos Lopes.

            A situação permaneceu sem alteração até 2022, quando pela Lei Municipal número 2090, de 20 de setembro de 2022, foram criados os distritos de Manejo e Orvalho. O município de Lima Duarte então passa a contar com seis distritos: Lima Duarte (sede), Conceição de Ibitipoca, São Domingos da Bocaina, São José dos Lopes, Manejo e Orvalho.

domingo, 21 de abril de 2024

Lima Duarte e o mito Tiradentes


       Até o final do século XIX, Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes, era um ilustre desconhecido da maioria do povo brasileiro.

            A Indepência do Brasil até então, tinha como “heróis” o Proclamador Dom Pedro I e seu mentor José Bonifácio de Andrada e Silva, cognominado o “Patriarca da Inedpendencia”. Localmente, cada região tinha seu “herói”, quase sempre um personagem que se destacou nas guerrilhas de combate às forças portuguesas que não aderiram a São Paulo e Rio de Janeiro de imediato, caso dos estados do Norte e Nordeste. Na Bahia, por exemplo sobressaiu a figura de Maria Quitéria.

            Com o golpe de Estado perpetrado por militares do Exército, é implantada a República no Brasil, em 15 de novembro de 1889. Rapidamente, os articulistas “republicanos” trataram de construir uma imagem positiva para o novo regime. E precisavam de alguém que de certa forma, traduzisse os ideais de independencia na ótica da  República, já que Dom Pedro e José Bonifácio eram monarquistas.

            Surge então o mito Tiradentes.

            As poucas informações a respeito do personagem podem ser obtidas nos Autos da Devassa, nome pelo qual ficou conhecida a transcrição dos depoimentos, petições e sentenças proferidas no julgamento dos inconfidentes. Propositalmente de seu conteúdo extraíram o que melhor convinha para a narrativa republicana, ignorando pontos basilares.

           


 O personagem recebe uma nova paginação. Foi representado com aparencia próxima à de Cristo Salvador, barbado e de olhar altivo, corda atada ao pescoço, facilitando a assimilação por parte do povo de seu suposto papel de “salvador da Pátria”. Palavras por ele ditas, nos Autos da Devassa, sofrem releituras e ganharam novo sentido, favorável aos tempos republicanos. A traição dos companheiros é reforçada, potencializando o ser heróico, digno de representar os que queriam “o bem do Brasil”.

            Jornais e publicações eram controlados pelo Governo Republicano. Logo, divulgaram-se muitos artigos que martelaram até que a massa assimilasse o “novo herói”.

            De um momento para outro, tudo que se relacionava ao ilustre enforcado, ganhou ares de importância, sendo extremamente valorizado. Neste contexto, uma informação surge de Lima Duarte…

            Em 1892, três anos após a Proclamação da Republica, foi localizado em Conceição de Ibitipoca, aos 115 anos, um contemporâneo de Tiradentes.

            Severino Francisco Pacheco, nascido em São Miguel do Piracicaba, declarou haver conhecido e convivido com o Tiradentes. Servindo no Regimento de Cavalaria de Ouro Preto, aos 14 para 15 anos, Pacheco conheceu de perto o Alferes, que reunia os amigos numa casa que alugou no Largo do Rosário daquela cidade, onde iam cantar modinhas e tocar violão, arte em que Joaquim José Xavier era perito. Pacheco descreveu Tiradentes como alto, simpático, de belos graços e gênio alegre e folgazão.

            As informações sobre Pacheco correram o Brasil. Logo foram solicitadas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, agora à serviço da narrativa republicana mais informações detalhadas sobre o “Herói”. O Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal de Lima Duarte na época, Major Manuel Victor de Mendonça, dirigiu-se pessoalmente à Ibitipoca, onde entrevistou longamente o lúcido Severino Pacheco, coletando o maior volume de informações que foi possível.

            As informações foram publicadas em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Juiz de Fora. Pacheco tornou-se famoso e recebeu uma pequena pensão da Câmara Municipal de  Lima Duarte que permitiu-lhe melhoras suas parcas condições de vida, até sua morte.

            Visitantes de todas as partes do Brasil vieram à Ibitipoca, conhecer o “amigo” de Tiradentes.

            Severino Francisco Pacheco faleceu em Conceição do Ibitipoca aos 22 de abril de 1894, com 117 anos. Seu funeral, custeado pelo Municipio de Lima Duarte,  foi muito concorrido, com a presença das autoridades municipais, chefiadas pelo Presidente da Câmara Tenente Coronel Major Manuel Victor de Mendonça, o qual, tornando-se amigo do falecido, fez questão de tomar a si uma das alças do caixão e levá-lo à sepultura, onde foi dignamente inumado.

            Lima Duarte entra, assim no processo de formação do mito Tiradentes.

sábado, 16 de março de 2024

Cinema: A Sétima Arte em Lima Duarte.

            O século XX trouxe muitas inovações à Lima Duarte. A maior delas, certamente foi a chegada à cidade dos primeiros aparelhos de transmissão de som e imagens, conhecidos como cinematógrafos. As imagens, até então vistas apenas fixas em fotos, reproduções ou pinturas, agora poderiam ser vistas em movimento e com som.

            A iniciativa pioneira de trazer à Lima Duarte um cinematógrafo ou projetor de imagens, coube à Manoel Delgado da Silva, o “Tineca França”, que em 1914, adquiriu e trouxe para a cidade o primeiro projetor de imagens, instalando-o em sua residência no Bairro Matosinhos, onde recebia os que desejavam conhecer a novidade.

            A população da época concorreu com entusiasmo às precárias exibições, pelas quais, a título de cooperação com o empreendimento, cobrava Tineca a quantia de um tostão, equivalente a cem réis. Tal iniciativa, até onde se sabe, permaneceu na esfera particular, sem gerar um estabelecimento especificamente destinado à atividade.

            Ao mesmo tempo, outras iniciativas foram tomadas, como a vivenciada por Afrânio de Paula ainda menino, que relatava ter participado da exibição do primeiro filme em espaço publico na cidade de Lima Duarte. A película, trazida pelo Sr Diógenes Salgado, de Andrelândia, foi exibida no Salão nobre da Prefeitura, para onde se deslocaram alguns bancos da igreja. Certamente trata-se de iniciativa posterior à pioneira, de melhor qualidade e melhor recurso técnico.

            Posteriormente, dois filhos do Major Francisco Neves, fundaram aquele que pode ser considerado o primeiro estabelecimento cinematográfico da cidade. Sabemos de sua existência por informações orais, sem contudo dispor de maiores detalhes.

           

Cine Ideal

Em 1936, Afrânio de Paula assume a diretoria da firma Nogueira & Cia, que administrava o Cinema Ideal, em sociedade com Isaías Nogueira da Gama. O Cinema Ideal funcionava em prédio situado na Rua XV de Novembro, atual Rua Antonio Carlos, com entrada ao lado do atual Clube do Minas e ao fundo do prédio onde hoje funciona o Empório.

            Dotado de palco e cadeiras para os frequentadores, o cinema passou a ocupar lugar de destaque na sociedade, seja como fonte de lazer ou servindo de palco a acontecimentos sociais de vulto. Jornais da cidade em 1930 davam conta da programação do estabelecimento, anunciando com entusiasmo a peça Acabaram-se os Otarios, “… o primeiro grande filme brasileiro synchorizado, cantado e fallado em portuguêz …” A peça era protagonizada por Genezio Arruda e foi grande sucesso no Cinema Nacional.

            Em 1940 Afranio de Paula afasta-se da direção da empresa que administrava o Cinema Ideal a qual é assumida por João Paulo de Abreu Guedes, sendo rebatizado o cinema com o nome de Cine Theatro Ìris.

            O primeiro filme colorido foi exibido em 1958, recomendado pelo Vigário da época, Padre João Severo Ramos de Oliveira. Trata-se de Marcelino Pão e Vinho, de Ladisláo Vajda, filme que marcou época, ficando em cartaz por muitos meses. Filas imensas se formaram na entrada do cinema.

             

            Outra experiência relacionada à exibição cinematográfica diz respeito a um projetor adquirido por Afrânio de Paula na década de 50, exibindo dezenas filmes em espaços públicos, como a Praça da Matriz, depois da missa, ou no pátio do Albergue de São Vicente de Paulo, nos finais de semana e em ocasiões de festa, onde se tornou uma das mais esperadas e prestigiadas atrações. Eram exibidos filmes de humor como os protagonizados por Charles Chaplin, a dupla O Gordo e o Magro, as chanchadas brasileiras, dentre outros.

            As apresentações eram noticiadas sempre com antecedência por meio de faixas e anúncios pelo Serviço de Alto Falantes da Igreja Matriz e capela do Albergue. A exibição de filmes na festa era feita num espaço coberto, destinado a esse fim, com cobrança de ingressos a preços módicos, auxiliando nas despesas e abrilhantando as festividades, que ocorriam durante todo o mês de julho. Os filmes eram alugados e chegavam em grandes rolos, embarcados na mala do Correio, via Estrada de Ferro Central do Brasil.

            O Cine Teatro Ìris marcou a vida de toda uma geração de limaduartinos. Ir ao cinema fazia parte do rolê daquela época, ficando os jovens agrupados em pequenos grupos ou mesmo passeando pelo Centro. O início das sessões de cinema era anunciado por um sistema de altofalantes instalado na entrada do cinema por meio de músicas que a tradição recolheu e mantém viva memória. Uma delas era o “Tema de Lara”, música tema do filme Doutor Jivago, composta em 1965 por Maurice Jarre.

            O Cine Thetro Íris encerrou suas atividades no fim da década de 1970, Seu último proprietário foi Paulo dos Reis Modesto. A decadência do cinema ocorreu paralela à chegada e popularização da televisão e a facilidade de acesso a Juiz de Fora, onde se dispunha de casas de exibição de melhor qualidade, melhor estrutura e maior poder aquisitivo, com exibição de filmes de sucesso e mais modernos.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Roda Seca – o coração que pulsa na memória

                

Roda Seca
Foto: Robertson Oliveira
1985

    Uma geração inteira de limaduartinos foi marcada pela existência e memória afetiva ligada à Roda Seca, monumento que se erguia bem no coração da cidade, no antigo Largo da Liberdade, atual Praça Nominato Duque.

            Antes do monumento, o local recebeu, em tempos remotos, um chafariz em coluna de ferro, erguido sobre uma base em degraus, que fornecia água para a população. Fotos das décadas de 1910 e 1920 trazem este chafariz, rodeado de pessoas em festas, enterros, procissões, sessões solenes do Tiro de Guerra e festas.

            A medida em que as residências passam a contar com a rede de água encanada, o chafariz perde um pouco de sua importância, entrando em decadência e abandono, como símbolo de um tempo de “atraso”, sendo demolido na década de 1930. Segundo relatos orais, o velho chafariz foi enviado para Olaria, na época parte do município de Lima Duarte.

            O Largo da Liberdade foi trocando de nome ao sabor da politica, sendo denominado Praça Getúlio Vargas e depois Praça Nominato Duque. Na memória dos moradores dos bairros, segue denominado como Largo, como o denominam até hoje os moradores com mais de 40 anos da Barreira, Bairro Cruzeiro e Afonso Pena.

            A “Roda Seca” surge no contexto de mudanças ocorridas na década de 1960, quando a cidade passa por um processo de modernização, com a chegada da BR 267, construção de prédios em linhas modernas, calçamento de ruas, construção de novo prédio para o Fórum e uma nova rede de energia elétrica, mais potente e atualizada.

            O Governador do Estado Israel Pinheiro (PSD) deu um prazo de 12 dias para o Prefeito Análio Moreira (UDN), construísse um monumento para abrigar a Placa de inauguração do novo sistema de distribuição de energia elétrica, que substituiu a Companhia Regional de Eletricidade, que forneceu energia à cidade de Lima Duarte desde 1918. Apesar de adversário politico do prefeito municipal, o que por lógica seria improvável, coube ao cidadão Lindomar de Paula Guimarães, professor do Ginásio Estadual de Lima Duarte e estudante de Direito em Juiz de Fora, aceitar o desafio proposto pelo governador, de que era correligionário e projetar e executar a construção do monumento em apenas 10 dias.

            O próprio professor Lindomar nos traz a descrição do monumento e seu simbolismo:

            “… As duas hastes como ponteiros de um relógio simbolizavam o tempo. Eram revestidas com pastilhas cerâmicas nas cores vermelha (Luta) e branca (Paz), uma metáfora da vida, feita de lutas e paz. A luta na paz levaria à vitória, simbolizada no V formado pelo encontro dos ponteiros.

            A placa documentando a inauguração do novo sistema de distribuição de energia elétrica era ligada a uma roda denteada, simbolizando a indústria, destacando o papel da energia elétrica para o bem estar e o desenvolvimento humano.

            No ponteiro horizontal havia um registro rotativo emissor de água e embaixo, um canteiro de grama (água e verde), mostrando o respeito à sustentabilidade ecológica, com base em principios defendidos por Le Corbusier. A posição dos ponteiros indicava qual deveria ser o sentido do caminhar, individual e coletivamente, ou seja, andar para frente e para cima, nunca para baixo.

            O monumento, inaugurado dia 30 de agosto de 1969 segundo Lourival Brasil, seria apelidado popularmente de Roda Seca, certamente pela interrupção do fluxo de água em seu aspersor. Sua existência marcou profundamente a vida de toda uma geração, que fez dele ponto de encontro, local de longos bate papos, ponto de referência. Os jovens se aproveitavam de sua posição privilegiada para paqueras, tendo sua silhueta, iluminada pela lua, testemunhado muitos encontros, que redundaram em namoros, noivados e casamentos. Durante o dia, era a vez dos mais velhos se reunirem ao seu redor, comentando fatos do cotidiano, relembrando velhas histórias.

            Nos Carnavais e festas todos nele se apinhavam, para ver a banda e os blocos passarem. Os veículos, naquela época podiam circulá-lo, e dependendo do movimento na “rua” descer ou voltar tomando outros rumos.Quem queria ser visto ou lembrado, passava pela “Roda Seca”

            Apesar de sua importância como marco histórico, presença significativa na cena urbana, memória coletiva e lembranças individuais, o monumento foi demolido pela Prefeitura de Lima Duarte em 1989, dando continuidade ao processo de obstrução e secção da principal rua da cidade, para a construção do Calçadão.


domingo, 7 de janeiro de 2024

ALICE DELGADO - uma vida dedicada ao Social.

 


            Hoje destacamos a figura de Alice Delgado, limaduartina ilustre, que será homenageada no Iº Forum de Desenvolvimento, que acontece em Lima Duarte, de 20 a 23 de fevereiro deste ano. A homenagem é um tributo à atuação da cidadã Alice de Paula Delgado na promoção do desenvolvimento das pessoas, como base do desenvolvimento da sociedade.

            Nosso objetivo é apresentar essa sua faceta, sem detrimento de outras, uma vez que pesquisas básicas revelam à cada dia novas atividades e experiências que desenvolveu, sozinha ou em grupo, sem que nunca possamos concluir. Seguiremos nas pesquisas...

 

Dados Biográficos

    Alice de Paula Delgado nasceu em Lima Duarte aos 06 de janeiro de 1938, filha de Pedro Cândido Delgado, cirurgião-dentista e de Alzira de Paula Delgado, professora de ensino primário no Grupo Escolar Bias Fortes.

         

Alzira e Pedro Candido
Por parte de pai, era neta de Maria Venância Delgado e Joaquim Cândido da Silva. Maria Venância era filha de Francisco Delgado Mota e Ana Cândida de Jesus. Joaquim Cândido era filho de Joaquim Inácio da Silva e Cândida Maria de Jesus, ambos de Rosário de Minas.

            Por parte de sua mãe Alzira, Alice era neta de Benvindo José de Paula e Maria Carlota de Paiva. Bemvindo de Paula descendia de Manoel José de Paula Rodrigues e de Inocência Jesuína da Cunha. Maria Carlota por sua vez era filha de Joaquim José de Oliveira e Carlota Augusta de Paiva.

            Alice Delgado fez os estudos primários básicos em Lima Duarte, seguindo para Juiz de Fora, onde formou-se professora. Em Juiz de Fora exerceu o Magistério por longos anos até se aposentar, quando passa a dividir seu tempo entre Juiz de Fora e Lima Duarte, onde ainda vivia e residia sua mãe.

 

Atuação na comunidade

            Católica praticante, exerceu por toda a existencia a função de catequista, preparando criancas e adolescentes para a Primeira Eucaristia, Perseverança e Crisma. Atuou também na Ordem Franciscana Secular, como membro da diretoria e formadora.

            Seguindo em sua ação na Igreja e inspirada nos ideais de Dona Zilda Arns, funda em 1998 em Lima Duarte, um núcleo da Pastoral da Criança, desenvolvendo com um dedicado grupo de agentes todas as práticas relacionadas à diminuição da desnutrição e mortalidade infantil,como produção e difusão da multimistura, pesagem periódica, uso do soro caseiro, distribuição de agasalhos, roupas e medicamentos, encaminhamentos para tratamentos e palestras instrutivas aos pais. Atuou também na formação de agentes da Pastoral da Criança, ampliando as ações nos bairros de periferia e comunidades mais distantes e carentes, trabalhando pela melhoria da qualidade de vida das crianças e suas famílias. O núcleo da Pastoral da Criança de Lima Duarte tornou-se referência em toda a Arquidiocese de Juiz de Fora, por sua atuação e eficiência.

            Oriunda de uma família com elevado grau de comprometimento social, participou, incentivou e colaborou com todas as iniciativas de caráter filantrópico e assistencial ocorridas na cidade, notadamente as realizadas em apoio ao Albergue da Sociedade São Vicente de Paulo, comandado por seu tio Afrânio de Paula e à Santa Casa de Misericórdia de Lima  Duarte, idealizada por sua avó, Maria Carlota.

            Produtora rural, manteve e desenvolveu a Fazenda Bom Retiro, administrando-a em nome de seus irmãos e co-herdeiros, envolvendo-se pela mesma forma em todas as questões relacionadas ao produtor rural.

           

Alice Delgado
Foto: Jornal O Sabiá

Pensando na política partidária como forma de promover o desenvolvimento social e cidadão, filia-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) em 02 de abril de 1992, seguindo os passos de seu sobrinho Paulo Delgado, professor universitário, um dos fundadores do PT e Deputado Federal reeleito para várias legislaturas, de 1987 a 2011. Uma vez filiada, desenvolve intensa atividade partidária, sendo indicada para concorrer ao cargo de vice-prefeita pelo Partido dos Trabalhadores na chapa que compôs com o professor Julio César de Paula, candidato a prefeito nas eleições municipais de 1992. A chapa, apesar de não sair vencedora, produziu uma campanha diferenciada, conciliando arte, entretenimento e engajamento social, reunindo em todas as localidades lideranças comunitárias para diálogo e troca de experiências, marcando época.

            Numa atuação cada vez mais marcante no meio social, recebe em 08 de março de 2002 a homenagem do Poder Legislativo de Lima Duarte no ensejo das comemorações do Dia internacional da Mulher. Nesse mesmo ano,em agosto, vamos vê-la festejando a inauguração de importantes melhoramentos nas dependências do Albergue de São Vicente de Paulo em Lima Duarte, realizados em sua maior parte, por meio de recursos obtidos por seu sobrinho e então deputado federal Paulo Delgado, junto à empresa CBMM – Cia brasileira de Mineração e Metalurgia.

            Participou como delegada municipal, representando Lima Duarte na Conferência Estadual de Segurança Alimentar, realizada em Belo Horizonte nos dias 2 e 3 de dezembro de 2002, tendo como companheiros Adélo de Souza Fernandes e Francisco Carlos Evangelista. Nessa conferência estebeleceu-se as bases da política de segurança alimentar do Estado de Minas Gerais.

            Vale realçar também sua participação e atuação nas atividades da Associação Mãos Mineiras de Manejo, transmitindo conhecimentos por meio de palestras e oficinas, além de um forte engajamento.

            Atuou na Comissão Paroquial que promoveu adesão e coletou assinaturas viabilizando o abaixo assinado que solicitava a apreciação, pelo Congresso Nacional do anteprojeto de lei de iniciativa popular, punindo a compra de votos e o uso da máquina pública. Obtida a aprovação da lei, que recebeu a denominação de Lei Federal 9.840, de 1999, fomentou e fez criar em Lima Duarte um Comitê, destinado a conscientizar a população eem geral e o eleitorado em específico sobre as consequências da compra de votos, além das implicações penais. O Comitê promoveu distribuição de folders, divulgação de mensagens por meio de carros de som e reunião com candidatos e chefes políticos.

            A atuação de Alice na área social vai muito além do que aqui citamos. Sua residência era diariamente ponto de convergência de dezenas de pessoas, em busca de auxilio material, aconselhamentos, troca de idéias, um bom papo, um cafezinho e mesmo encaminhamentos. Com sua vasta rede de contatos em Lima Duarte, Juiz de Fora e outras cidades, obtinha todo tipo de apoio à demandas, principalmente nas áreas de saúde e assistência social. Com seu apoio e influência, aliados a uma tenacidade e perseverança sem igual, muito se fez em beneficio do socorro e da promoção da dignidade humana, num esforço em que contava com apoio de  irmãos, primos e amigos.

            Os de melhor memória lembrar-se-ão de um Fiat 147 na cor azul, veículo pau para toda obra, que, conduzido por “Dona Alice” era sinal de esperança e luz para muitas pessoas.

            Ao longo do tempo, sentindo o peso dos anos, Alice Delgado reduziu, sem contudo paralisar totalmente, suas atividades sociais. Permaneceu atuante, principalmente em demandas familiares, seguindo seus propósitos e princípios.

            Após um período adoentada, veio a falecer em Juiz de Fora, aos 22 de junho de 2021. Terminava assim a trajetória de uma grande liderança de Lima Duarte, cuja ausência se faz sentir ainda hoje, num momento em que, com raras exceções, é quase nula a existência de ações cidadãs, desprovidas de interesses partidários, ideológicos ou eleitoreiros.