segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Cem anos da ferrovia: No meio do caminho havia um paiol...


            Em 1925, transposta a ponte sobre o Rio do Peixe em Valadares, os trilhos avançaram pelo território de Lima Duarte, buscando atingir a cidade, primeira etapa da ligação Juiz de Fora a Bom Jardim do Turvo.

    Na altura da localidade de Manejo, uma ação judicial havia embargado as obras, impedindo-as de prosseguirem.

           

    O limaduartino Alcebíades de Oliveira, nomeado juiz federal substituto em 1923 pelo presidente Arthur Bernardes, recebeu um ofício do secretário da Presidência da República, solicitando que tomasse as providencias cabíveis relativas à uma ação de embargo impetrada na Justiça contra a União, pelo advogado de João de Deus Duque Neto, proprietário da Fazenda dos Órfãos em Manejo, na qual solicitava que a Central não “tocasse o paiol nem atrapalhasse o rego de água”.

            Buscando apoio com seu amigo e advogado de confiança Alfredo Catão, este orientou-lhe que procurasse Nestor Neves e marcasse uma audiência no fórum, solicitando o comparecimento de dois engenheiros para junto com eles, em diligência, dirigirem-se ao local do paiol e rego de agua de forma a lavrarem auto, avaliarem o paiol e o rego de agua, arbitrando valor a ser pago pela União.

            O paiol era velho e bem deteriorado, tendo sido avaliado em 600 mil réis. Quanto ao rego de água, em nada seria prejudicado pela “linha”, bastando que se fizesse um bueiro de concreto adequado à sua passagem sob os trilhos.

            A União prontamente acolheu os autos, efetuando o pagamento da indenização.

            O velho paiol foi demolido, o bueiro construído.

            E a linha seguiu.

 

            Os dados que me permitiram recontar esse causo, foram fornecidos por Luan Paula, descendente do sr. Alcebíades, também pesquisador da história de Lima Duarte, a quem muito agradeço.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Assim nasceu a Paradinha

 

A primeira locomotiva nos arredores da cidade
1925
Acervo Afranio de Paula

            A terça feira, 08 de dezembro, amanheceu chovendo, aquela chuva fininha que sobrou depois do aguaceiro da noite de véspera.  

            Os três sinos da Matriz badalaram ainda cedinho, chamando pra missa. Missa, em 1925, era todo dia: padre não tinha folga, nem preguiça. O Padre Carlos Muller, com português arranhado de sotaque alemão, fez o sermão da Imaculada Conceição de Maria. De resto, tudo em latim, missa cantada, coro afinado, orquestra.

            Na saida da missa, a “rua” já se enchia de gente, de todos os lados. Todos estavam ansiosos para a chegada da “Maria Fumaça”, prevista, mais uma vez para a tarde daquele dia. A linha já tinha chegado no “Matosinhos”, depois que a “Central aterrou a várzea do João Avellar.

            Muitos já nem acreditavam que o trem chegaria. Desde 1911, se arrastavam as obras, que pararam em Penido, em 1914. De lá até à Várzea do Carmo foram mais onze anos. O deputado Francisco Valadares, tanto lutou pra linha andar, que acabou ganhando homenagem. E a Várzea do Carmo virou Valadares, em 1925.

            Agora era nossa vez.

            Às duas horas da tarde, o povo já se amontoava no Matosinhos, onde a Central levantou um prediozinho elegante, coberto de telha francesa, com uma pequena plataforma. Para nós estação, mas o Dr. Jurandir o chamava de estribo. Catão, estudado, chamava de Gare, estação em francês. Nominato completava: estribo provisório, já que a estação mesmo, era só aquela bitela, que se construía perto de sua casa…

            E assim foi. Às três horas da tarde, se ouve um apito pros lados do Barulho.  A banda Santa Cecília rasgou um dobrado e o povo explodiu em vivas e foguetes. A primeira locomotiva a entrar em Lima Duarte, foi uma 4-4-0 “American”, fabricada pela Baldwim em 1877, de número 115, que virou sucata em 1943.

            Saiu a composição de Juiz de Fora às 11h30, trazendo muita gente: um bando de engenheiros, comandado pelo Dr. Jurandir Pires Ferreira, funcionários da Central, Dr. Eduardo de Menezes Filho, presidente da Câmara de Juiz de Fora, o representante do General Estanislau Pamplona, comandante da IV Região Militar, senhoras, senhores e senhoritas da sociedade juizforana. Vieram também representantes da imprensa. Graças a eles sabemos que de Lima Duarte, havia apenas muito povo: Dr. Nominato, Presidente da Câmara de Lima Duarte e as autoridades locais não se fizeram presentes.

            E o povo explodiu em vivas ao Dr. Jurandir e ao Dr. Pires e Albuquerque!

            Falando em nome do povo de Lima Duarte, discursou o advogado Ezichio Seabra Azamor Filho, saudando os engenheiros construtores e convidando a esposa do Dr. Jurandir para cortar o cordão verde e amarelo que impedia a máquina de chegar ao ponto final dos trilhos, sendo logo após a ilustre senhora, presenteada com um belo ramilhete de flores, oferta das mulheres limaduartinas.

Inauguração da Paradinha
Acervo Afranio de Paula

          

             As 6 horas da noite, na Pensão Oliveira, foi servido um jantar aos convidados. Aí sim, Nominato apareceu e fez discurso. Salles Duarte, representante do Correio da Manhã também discursou. Agradeceu em nome da Central o Dr. Jurandir Pires, e homenageou os demais engenheiros construtores o acadêmico Theobaldo Miranda.

            A comitiva regressou à Juiz de Fora às 20 horas, mas em Lima Duarte os festejos seguiram por toda a noite, alcançando a madrugada.

            Assim nasceu a Paradinha….

            A inauguração oficial ocorreria apenas em 1º de março de 1926, quando um trem especial veio à cidade, trazendo de novo engenheiros, autoridades, alta sociedade e imprensa.

            A Parada inicialmente foi chamada pelo povo de Parada do Matosinhos e também Parada de Lima Duarte.

            Em 1930, por ocasião da Revolução que pôs Getúlio Vargas no poder, a Paradinha foi fechada por determinação da direção da Central. Reaberta e ampliada em 1937, em 1939 ganha finalmente o status de Parada, recebendo o nome de Deocleciano Vasconcelos.

            Este nome é uma homenagem a Deocleciano Cândido de Vasconcelos, que foi Secretário e Assistente Jurídico da Estrada de Ferro Central do Brasil – E.F.C.B no período de 17 de julho de 1920 a 23 de junho de 1942.

            Desativada a ferrovia em 1968, o predio permaneceu de pé até os primeiros anos da década de 1980, quando foi sendo depredado, restando apenas a plataforma e parte da estrutura de sustentação da cobertura. Ainda assim a plataforma seria cortada lateralmente em 1991, para alargamento da rua Francisco Valadares.

            Em 2015, os remanescentes da estrutura de cobertura, plataforma da estação e entorno, foram tombados como Patrimonio Histórico do Município de Lima Duarte, por meio do Decreto nº 177, de 30 de novembro de 2015.

           

 

 


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

1925 - Cem anos da Chegada do trem a Lima Duarte – 2025 – As Quatro Estações


            Com ponto inicial na estação de Benfica, inaugurada em 1º/02/1877, situada no km 288,625, à 685 metros acima do nível do mar, o ramal de Lima Duarte possuía sete estações, sendo três no atual território de Juiz de Fora (Igrejinha, Penido e Valadares) e quatro em terras de Lima Duarte: Orvalho, Manejo, Deocleciano de Vasconcellos e Lima Duarte. Conheça um pouco sobre nossas quatro estações

 


Orvalho
: situada no km 323,260, à uma altitude de 727 metros acima do nível do mar, herdou seu nome da Fazenda do Orvalho, em cujas terras foi erguida. Servia também à região de Pedro Teixeira e Santa Bárbara, o que justifica as dimensões de sua plataforma. Possuía caixa d´água para abastecimento da caldeira da locomotiva, Casa de Agente e Casas de Turma. O prédio da estação, preservado, foi tombado pelo Conselho do Patrimônio Histórico em 1997. Aberta ao público oficialmente em 1º/03/1926, teve o prédio inaugurado somente em 5/01/1928

 

Manejo: situada no km 330,720, à 688 metros acima do nível do mar, herdou o nome da Fazenda do Manejo, principal e mais antigo estabelecimento rural da Várzea dos Almeidas. Possuía Casa de Agente e Casas de Turma. Aberta ao público oficialmente em 1º/03/1926, teve o prédio inaugurado somente em 5/01/1928. Após a erradicação da ferrovia, o prédio foi vandalizado, restando apenas a plataforma, demolida pela Prefeitura de Lima Duarte para a construção do prédio da Escola Estadual Tiago Delgado.

 



Deocleciano de Vasconcellos
: situada no km 338,240, à 724 metros acima do nível do mar, foi construída em terrenos de João Francisco de Avellar, sendo aberta ao público em 08/12/1925, e inaugurada em 1º/03/1926. O nome é uma homenagem à Deocleciano Cândido de Vasconcellos, alto funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil. Inaugurada como estribo em 1926, foi fechada em 1930, sendo reaberta parcialmente para embarque e desembarque de passageiros em 1937 e definitivamente em 1939, quando obteve o status de parada. Possuía Casa de Agente e Conferente e Casas de Turma, além de desvios. Com a extinção da ferrovia, a estação passou aos cuidados dos Correios e deste à Prefeitura de Lima Duarte. Abandonada e vandalizada, teve seus remanescentes tombados como patrimônio Cultural de Lima Duarte somente em 2012, após ação do Ministério Público Estadual acatando pedido de tombamento feito pelo Instituto Candeia. Recebeu obras de consolidação e reforma apenas da plataforma e coberturas em 2025.

 

Lima Duarte: situada no Km 340, 840, a 704 metros acima do nível do mar, foi erguida em terras do
Cel. Augusto Alves, sendo o ponto terminal do ramal de Lima Duarte. Além do vasto prédio, possuía Casa de Agente, Casa de Conferente e Casas de Turma, além de desvio morto, caixa d`´agua para abastecimento da caldeira da locomotiva e triangulo de reversão. Foi inaugurada somente 28/10/1930, com o fechamento da Paradinha. Após a erradicação da ferrovia serviu de moradia temporária a famílias necessitadas, sendo depois ocupada por órgãos da administração municipal, tendo seu vasto pátio sido transformado em Parque de Exposições, com a demolição de sua plataforma. A estação foi tombada como bem cultural relevante pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico de Lima Duarte em 1997.

 

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

1925 - Cem anos da Chegada do trem a Lima Duarte – 2025 – Fatores que atuaram no contexto da ferrovia


            Em 1873, foi aprovada na Assembleia Provincial de Minas Gerais a primeira concessão de ferrovia para a região onde está hoje Lima Duarte. A ligação da Mata com o Sul de Minas era prioridade para o estado, pois se tratava de suas duas regiões mais ricas e desenvolvidas. Outras concessões foram aprovadas, também estaduais, porém nenhuma obteve êxito.

            Em 1910, o Governo Federal encampou e tornou federais, várias companhias ferroviárias, concessões estaduais e projetos de ligação. O ramal de Lima Duarte, deixa então de ser uma obra estadual e passa a concorrer por verbas e créditos no Orçamento da União com outras tantas obras pelo país.

            A crise do café, a partir de 1929, diminuiu a importância da Zona da Mata e o Sul de Minas, o que implicou, por tabela em perda de poder político nas duas regiões. Com menos representação política, menos verbas, retardando o andamento das obras.

            Com a ascensão de Belo Horizonte e a decadência de Juiz de Fora como principal cidade do estado de MG, o quadro de menor representação política e econômica se acentua, diminuindo em importância a ligação ferroviária Juiz de Fora – Bom Jardim.

            Por outro lado, as bancadas federais dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, atuaram fortemente para que a ligação não fosse completada, em vista dos prejuízos que teriam, já que os trens, uma vez concluído o ramal, não beneficiariam mais seus estados, com taxas aduaneiras, movimento de passageiros, cargas e toda a infraestrutura beneficiada nos deslocamentos, como hotéis, pousadas, restaurantes e comercio em geral.

            Iniciada a implantação do ramal em bitola métrica, como demais que deveria interligar, foi logo alterada para bitola larga, fazendo com que a ferrovia perdesse sua função original, tornando-se apenas um galho da Linha do Centro, quando deveria unir a métrica da Central do Brasil, à Leopoldina e a Estrada de Ferro Sapucaí (depois Rede Mineira de Viação).

            No pano de fundo, as duas grandes Guerras Mundiais (1914 a 1918 e 1939 a 1945), também interferiram no contexto do Ramal de Lima Duarte, provocando paralisações de obras (1917 a 1921 e 1939 a 1945), assim como a Revolução de 1930, que paralisou a continuação das obras além da estação de Lima Duarte e fechou a Parada de Lima Duarte.

            Reiniciadas as obras em 1945, num Brasil cada vez mais rodoviário, seguiram em ritmo lento, sofrendo a concorrência de outros ramais que estavam sendo implantados pelo pais e a concentração de poder nas zonas Centrais e Metalúrgica de Minas Gerais, alavancadas pelo capital gerado pela exploração e exportação do minério de ferro, que inicialmente escoado pela Estrada de Ferro Vitória a Minas, gerará a Ferrovia do Aço.

            Completando o elenco dos fatores que interferiram na implantação do ramal de Lima Duarte, a transferencia da capital da Republica do Rio de Janeiro para Brasília em 1960, reduz ainda mais a importância econômica e política da Zona da Mata, tornando a ligação ferroviária cada vez mais sem sentido prático, fazendo com que Lima Duarte abraçasse de braços abertos a BR 267.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Cem anos da Chegada do trem a Lima Duarte – 2025 – A importância do Ramal de Lima Duarte.

 

 

            Nos meados do século XIX e início do século XX, a Zona da Mata e o Sul de Minas eram as regiões mais ricas e desenvolvidas do estado de Minas Gerais.

            Juiz de Fora, vizinha de Lima Duarte, detinha sem rivais ou ameaças, o posto de cidade mais desenvolvida e rica de Minas Gerais, alavancada pelo capital gerado pelas plantações de café, que financiou estradas, ferrovias, energia elétrica, bondes, industrias e comércio.

            Para entender a questão, quem seguia por exemplo, de Juiz de Fora a Caxambu, no sul de Minas, tomando o trem em Juiz de Fora, teria que passar por Três Rios, Barra do Piraí, e daí seguir até Cruzeiro, donde se subia a Mantiqueira por ferrovia até Caxambu, numa distância de 424 quilômetros por ferrovia, ou dois dias de viagem em cálculo otimista.

            Para as mercadorias era um grande empecilho. As cargas passavam por barreiras de divisas, sendo tributadas a cada divisa de estado, além das baldeações causadas por diferenças de bitola, horários de trens, atrasos, acidentes e interrupções de tráfego.

            Na época, as duas cidades da Zona da Mata e Sul de Minas mais próximas eram, Lima Duarte e Turvo (Andrelândia). No município de Turvo já havia ferrovia no distrito de Bom Jardim, (por isso denominado Bom Jardim do Turvo) o qual já era ligado por ferrovia a Caxambu. Bastava então, ligar Juiz de Fora ao distrito de Bom Jardim do Turvo, num total aproximado de 120 quilômetros, reduzindo a distância entre Juiz de Fora e Caxambu para algo em torno de 256 quilômetros, uma economia de 168 quilômetros.

            O melhor caminho para a ferrovia de Juiz de Fora a Bom Jardim, seria acompanhando o vale do Rio do Peixe até seu afluente mais a oeste, e daí dobrar a vertente e tomar o vale do Rio Grande, em cuja margem direita estava o distrito de Bom Jardim. Nossa querida Lima Duarte, a velha Rio do Peixe, estava justamente no meio desse caminho.

            Por isso, e só por isso, a ferrovia passou por aqui.

            Na medida em que Juiz de Fora e a Zona da Mata perdem importância econômica, perdem também influência política, fazendo com que cada vez menos recursos federais fossem aplicados nas obras, vetados pelas bancadas fluminenses e paulistas, representantes de regiões de estados que seriam prejudicados pela ligação Juiz de Fora a Bom Jardim do Turvo.

sábado, 5 de julho de 2025

1925 - Cem anos da Chegada do trem a Lima Duarte – 2025 – Os homens da ferrovia


            A construção do ramal de Lima Duarte foi obra custosa, que delongou - se por mais de quatro décadas. Atingida a cidade de Lima Duarte, em 08 de dezembro de 1925, as obras paralisaram, gerando dúvidas quanto à sua continuidade até Bom Jardim do Turvo.

Nessa fase, entram em cena os militares da Quarta Região Militar, sediada em Juiz de Fora, que viam na ligação a Bom Jardim grande importância estratégica, ao possibilitar a comunicação rápida entre as unidades militares do Exército sediadas em Juiz de Fora, Santos Dumont, Três Corações e Itajubá.

Os comandantes militares assumiram publicamente a defesa da continuidade das obras, visitando-as e vistoriando-as, destacando-se entre eles:

 

Constâncio Deschamps Cavalcanti


Nascido aos 01/11/1872 e falecido aos 07/12/1957.

De 1933 a 1934 foi Comandante da Quarta Região Militar, com sede em Juiz de Fora. O general Deschamps Cavalcanti notabilizou-se pelo empenho e dedicação, na luta por obter por todos os meios a continuação das obras da ligação ferroviária de Lima Duarte a Bom Jardim do Turvo, tendo estado na região pessoalmente a estudar a questão. Seu interesse era que o Batalhão de Engenharia de Itajubá prosseguisse as obras, facilitando assim sua conclusão.

Palestrou sobre a importância da continuação do ramal em varios eventos e percorreu inúmeros gabinetes e repartições públicas em busca do apoio e adesão dos políticos e funcionários públicos.

 

Onofre Muniz Gomes de Lima

Nascido aos 17 de abril de 1891 e falecido aos 23 de abril de 1969.

Militar e político brasileiro. Fez brilhante carreira militar, culminando com o posto de General.

Nessa função, comandou a Quarta Região Militar, então sediada em Juiz de Fora, assumindo também a postura de empenho e luta pela continuação das obras.

Visitou e inspecionou as obras do ramal em 05 de agosto de 1948, sendo recebido festivamente em Lima Duarte, Olaria, São Domingos, Capoeira Grande e Bom Jardim de Minas.

 


Zeno Estilac Leal


General, Comandante da Quarta Região Militar, sediada na época em Juiz de Fora.

Visitou e vistoriou as obras do ramal ferroviário de Lima Duarte a Bom Jardim em 26 de maio de 1951, acompanhado do Prefeito Municipal de Juiz de Fora Olavo Costa.

 

terça-feira, 10 de junho de 2025

1925 - Cem anos da Chegada do trem a Lima Duarte – 2025 – Os homens da ferrovia


            A implantação da ferrovia em terras limaduartinas, não se fez sem o esforço, dedicação e empenho de muitos cidadãos, nas diferentes áreas e setores da sociedade.

            Cada um, em sua medida, agiu como motor propulsor desse grande projeto e por aqui, citaremos alguns, que se destacaram:

 

João de Deus Duque Neto

Fazendeiro, industrial do setor de laticinios e progressista, propôs ao Cel, José Virgilio a formação de uma Comissão Científica, formada por representantes de Juiz de Fora e Lima Duarte, com o objetivo de estudar as formas de viabilizar a construção de um hospital para tuberculosos na Serra de Ibitipoca e implantação de uma ferrovia entre Lima Duarte e Juiz de Fora.

A Comissão revestiu-se de pleno exito, confirmando a excelencia do clima de Ibitipoca para a instalação do hospital e promovendo a vinda da ferrovia, cujas obras teriam inicio 5 anos depois.

 

José Virgílio de Paula


Fazendeiro e líder político. Nascido em 1856 e falecido em 1933.

Presidente da Câmara Municipal de Lima Duarte e Agente Executivo Municipal de 1905 a 1907, promoveu e acolheu a vinda à Lima Duarte da Comissão Científica, que de Juiz de Fora reuniu um grande número de medicos, politicos e cientistas, com o objetivo de analisar a viabilidade da construção de um hospital para tuberculosos na Serra de Ibitipoca e a ligação ferroviária entre as duas cidades. Entre os membros da Comissão destacavam-se os médicos Eduardo de Menezes, José Penido Filho, o advogado Francisco Valadares e o escritor Belmiro Braga. Penido e Valadares, uma vez eleitos, se tornaram os grandes impulsionadores das obras do ramal, atuando como deputados no Congresso Nacional.

 

José de Sales e Almeida

Fazendeiro, industrial do ramo de laticinios e lider politico.

Proprietário de laticinio na atual região de Orvalho, sempre buscou forma de poder comercializar sua produção de manteiga, tornando-se logo um dos grandes defensores da extensão ferroviária de Lima Duarte a Juiz de Fora.

Na locação do ramal, obteve por meio de seu prestígio político a construção de uma estação ferroviária bem próximo à sua propriedade, batizada com o nome de estação de Orvalho, em cujo entorno se desenvolveu a povoação de Orvalho.

 



Nominato de Paiva Duque


Fazendeiro, médico e líder político de Lima Duarte, nascido em 1885 e falecido em 1947.

Presidente da Camara e Agente Executivo Municipal de 1923 a 1930 e Interventor Estadual de 1937 a 1945, atuou incisivamente na luta pela implantação do ramal ferroviário, ao lado de Alfredo Catão.

A chegada da primeira locomotiva à Paradinha em 1925 e a inauguração da ferrovia em 1926 ocorreram em seu mandato, que também assistiu a paralisação das obras por volta de 1930. Promoveu inumeras diligencias a autoridades federais para a continuação das obras até Bom Jardim, as quais foram retomadas em agosto de 1945.



quarta-feira, 14 de maio de 2025

1925 - Cem anos da Chegada do trem a Lima Duarte – 2025 – Os homens da ferrovia


         A implantação da ferrovia em terras limaduartinas, não se fez sem o esforço, dedicação e empenho de muitos cidadãos, nas diferentes áreas e setores da sociedade. Cada um, em sua medida, agiu como motor propulsor desse grande projeto e por aqui, citaremos alguns, que se destacaram:



Alfredo Carneiro Viriato Catão

Transferindo-se a Lima Duarte em 1892, encaminhou ao Congresso Mineiro um extenso relatório, em que expunha as potencialidades econômicas da região de Lima Duarte e a vantagem de se interligar a Zona da Mata ao Sul de Minas por ferrovia. 

Promoveu a vinda a Lima Duarte do Dr. Paulo de Frotin, diretor da Central do Brasil, para um estudo do melhor trajeto para o ramal em 1910. Batalhou na imprensa local e como corrspondente de jornais do Rio de Janeiro e Juiz de Fora.

Pleiteou junto às Camaras Municipais de Lima Duarte e Juiz de Fora a implantação de uma linha de bondes de Lima Duarte até a divisa com Juiz de Fora, tendo obtido a concessão municipal no trecho de Lima Duarte.

 

João Nogueira Penido Filho

Nasceu em 28 de janeiro de 1862, em Juiz de Fora, falecendo em 1945. Pelo lado materno era sobrinho do Comendador José Rodrigues de Lima Duarte e bisneto do Inconfidente José Aires Gomes

Médico e politico mineiro, atuou em vários setores da sociedade, notabilizando-se por sua atuação
político partidária.

Eleito deputado federal em 1909, cumpriu mandato até 1911. Em 1915 é de novo eleito, cumprindo mandato até 1917. Nesse mandato, notabilizou-se pela defesa da implantação do ramal de Lima Duarte, por sua viabilidade economica. A estação ferroviaria erguida na localidade de Espírito Santo leva seu nome, Penido, nome este que passoua denominar também a localidade.

 


Francisco Campos Cordeiro de Valadares


Nasceu na Paraíba do Sul, estado do Rio de Janeiro. Bacharel em Ciências e Letras e advogado, foi procurador público no município de Pomba e também em Juiz de Fora.

Proprietário do Jornal "O Pharol, atuou também na polítuca, tendo sido eleito deputado federal por várias legislaturas.

A ligação ferrovária Benfica a Bom Jardim foi a maior de suas bandeiras como deputado, encaminhando proposições, ofícios e requerimentos, além de insistentes discursos na tribuna pela liberação de recursos para as obras.

Foi homenageado na estação construída em Varzea do Carmo, a qual recebeu seu sobremome Valadares, nome este que passou ao povoado que se formou ao redor da estação e ao distrito. Em Lima Duarte, a rua que dá acesso à Paradinha leva seu nome.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

1925 - Cem anos da Chegada do trem a Lima Duarte - 2025

Logotipo da Estrada de Ferro Central do Brasil


            Em 8 de dezembro desse ano, completar-se-ão os 100 anos da chegada da prinmeira locomotiva à Lima Duarte. Para entendermos hoje a importância dessa data, precisamos voltar no tempo.

            Em 1925, a distancia hoje percorrida até Juiz de Fora em 40/50 minutos, consumia, na melhor das hipóteses, um a dois dias de viagem a cavalo, com as necessarias paradas para pouso e alimentação dos animais e descanso dos cavaleiros. Transporte de cargas via tropas ou carros de boi, levavam mais alguns dias. Mesmo com a chegada dos automóveis, esse tempo podia chegar a semana, dependendo das condições das estradas, principalmente nos Morros da Fumaça e do Caracol, onde as subidas ingremes se somavam aos atoleiros e pontes levadas pelas enchentes. Tudo que se produzia aqui saía e chegava por tropas, carros de boi ou pelos pioneiros caminhões, que trafegavam por toscas estradas, disputando espaço com carros de bois e tropas. Tropeiros traziam nas suas famosas arcas, miudezas e armarinhos, tecidos finos, e artigos de toucador, previamente encomendados.

            O telégrafo chegou mais cedo, em 1920, permitindo comunicação mais rapida. Os jornais vinham pelo Correio, que levava cerca de quatro dias da estação de João Aires até Lima Duarte. A partir de 1924, C correio passou a vir da estação de Valadares, inaugurada com agencia postal.

            A ausencia de transporte decente que nos interligasse à “civilização” foi inclusive motivo para que a Comarca fosse transferida para Palmira (atual Santos Dumont) em 1890, sendo restaurada em 1891. Um juiz nomeado se recusou a ter que se deslocar a cavalo até Lima Duarte e “mexeu os pauzinhos” para que a sede da Comarca fosse transferida para Palmira, “...cidade moderna e bem situada, servida pela Linha do Centro da Central do Brasil..."

            O município de Lima Duarte, por volta de 1915, experimentou um processo de decadência econômica, visível na queda na arrecadação, motivo pelo qual a Comarca acabou sendo extinta, uma vez que não atingímos o valor minímo de arrecadação previsto em Lei.

            A chegada da ferrovia que nos interligaria a Juiz de Fora e a Bom Jardim se tornou então a salvação da economia, uma vez que permitiria o escoamento da produção de produtos agrícolas, lenha, madeiras, toucinho, aves, leite e derivados, além de abastecer o comércio local com produtos manufaturados e industriais.

            A chegada das turmas para a construção do leito da ferrovia, a partir de 1911, trouxe novas tecnologias à cidade, aplicadas na abertura da Rua da Barreira e nas demais vias públicas. Muitos imigrantes chegaram à cidade nessa época, alguns radicando-se aqui para sempre. Os “da Turma da Central “ foram os principais motivadores do Carnaval de rua, formando animados blocos e desenvolvendo a cultura do samba na cidade.

            Coincidencia ou não, em 1925 o município em 1925 recupera sua arrecadação, cumpre o estabelecido em lei e tem de novo seu Juiz de Direito empossado. O fato reafirma o clima de desenvolvimento e ânimo que a aproximação dos trilhos trouxe à cidade.

            Mas o que teremos para comemorar em 08 de dezembro?

            Nos dias de hoje, uma das pontes da ferrovia agoniza, ao lado do Postinho, no Jardim Primavera. A estação da Barreira perdeu suas plataformas, demolidas por pessoas bem intencionadas, mas ignorantes da importância de uma plataforma extensa e larga, numa estação. A Caixa d’agua que abastecia as caldeiras, segue, aguardando tombamento que a valorize, sendo repintada a cada exposição, servindo até de propaganda de ração. A adutora de água da estação, jaz agonizando no meio do mato, em terras particulares. O pontilhão, obra de arte em ferro, jaz debaixo de uma mão de cal, cal que também tampou a bela alvenaria de pedra, por ocasião de uma procissão de Corpus Christi que saiu da capela do Albergue, sem falar do seu entorno, que o descaracteriza, ao ter invandido o espaço das estruturas de contenção dos aterros. De noite, só dá pra imaginar quanto belo seria ver a estrutura bem iluminada, como bem observou um dia o Professor Flavio Riolino, filho de ferroviário que chefiou a Estação da Paradinha.

            E por falar em Paradinha, onde chegou a primeira locomotiva, é pessima a conservação das estruturas metálicas, e se faz necessária a reconstrução da plataforma cortada e das instalaçoes, tal como estabelecido no TAC , gerado após o tombamento em 2015 (dez anos!!!).

            Ver a Paradinha ajustada às condições previstas no TAC, e com uso para os dias de hoje, como Memorial Urbano, seria a melhor forma de comemorarmos sem Centenário.

            Seria um sonho?

            Não. Recursos temos. Basta priorizar!

            Patrimônio Historico também é Cultura!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

De São Vicente a Barbacena


            A primeira vila sede de município do Brasil, foi São Vicente - SP, fundada em 1532 por Martim Afonso de Souza. De certa forma, seu território compreendia todo o Sul do Brasil, até que em 1534, a Coroa Portuguesa resolve dividir o Brasil em 14 lotes, denominados Capitanias Hereditárias. São Vicente torna-se então sede da Capitania de São Vicente, com um território que  ia de Macaé -RJ a Bertioga SP, com limite oeste na linha do Tratado de Tordesilhas.

fundação de S. Vicente
Benedito Calixto

            Com a morte de Martim Afonso e pelo fato de não ter filhos, a capitania passou a sobrinhos – herdeiros.  Após longas disputas judiciais pela posse, a capitania acabou dividida.  A parte destinada a Condessa de Vimieiro se tornou a Capitania de Itanhaém. Vendo que Itanhaém não dispunha de recursos, a Condessa ordenou a seus procuradores que explorassem e fundassem povoados no Vale do Paraíba. Assim foi fundado em 1640, o povoado que deu origem a Taubaté SP, que em 1645, se emancipa, tornando-se sede de municipio.

Vila de Itanhaém

            Como forma de encorajar as explorações do interior, a Coroa Portuguesa concede aos exploradores os direitos sobre as terras que “descobrissem” com suas minas e lavras. De Taubaté, então, partiram inúmeras expedições para a região onde hoje estamos, garantindo os privilegios de Taubaté sobre quase todo o território das Minas. São fundados nessa época muitos povoados, embriões das futuras cidades de Mariana, Sabará, São João del Rei, Ouro Preto, etc.

Vila de Taubaté

            Até 1711, então, todo o territorio de Minas pertenceu a Taubaté. Nesse ano, em 08 de abril, é criada a vila sede de município de Mariana e em 08 de julho a vila sede de municipio Vila Rica (Ouro Preto), a qual passa a ter jurisdição sobre nossa região até 1713, quando é criada o municipio de Rio das Mortes ( São Joao Del Rei).

São João del Rei

            São Joao Del Rei será nossa sede municipal até 1791, quando o Visconde de Assumar criar a Vila e municipio de Barbacena, cujo território integraremos até 1881

            Assim fica então nossa lista de sedes municipais: São Vicente-Itanhaém-Taubaté-Mariana-Ouro Preto-São João Del Rei-Barbacena

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Sebastião, o santo das flechas, que afasta a peste e protege o gado


            Na transposição dos mitos greco romanos para o Cristianismo, Sebastião herdou as caracterícas basicas do deus Apolo. Apolo era representado jovem, guerreiro, em plena forma física, tendo como atributo as flechas, com que enviava à Terra guerras, pestes e epidemias.

            Ao sobreviver às inúmeras flechadas atado a um tronco no Jardim de Apolo, Sebastião torna-se maior que as flechas, portanto maior que Apolo, na visão católica. A partir dai, inverso de Apolo, passa a defender e proteger a Terra das guerras, das pestes e epidemias, sendo para isso invocado como intercessor.

           Na colonização brasileira, em terras tropicais, as pestes e epidemias foram frequentes, fazendo com que a devoção ao santo estivesse por isso, sempre presente. Inúmeras capelas e oratórios, boa parte deles votivos, ou seja, erguidos em cumprimento de voto ou promessa, foram surgindo em todo o território brasileiro, alguns deles se tornando matrizes e catedrais, caso por exemplo do Rio de Janeiro, onde o santo é padroeiro.

            Em  nossa região, não foi diferente. Tendo como base a criação de gado bovino, foi palco de inúmeras epidemias, seja de febre aftosa, que dizimava os rebanhos, seja de varíola, também associada ao rebanho bovino. Natural então que a devoção ao santo aqui se fortalecesse. Uma pequena imagem do santo, figurava, desde sempre, na capela que virou Matriz. Capelas dedicadas ao santo foram erguidas em Monte Verde, Rancharia, Taboão, Quintilianos e bairro Afonso Pena. Imagens do santo se encontram no retabulo mór da Matriz de Ibitipoca, na capela de São José em São José dos Lopes e na capela de São Domingos de Gusmão em São Domingos da Bocaina, dentre outras.

            Um outro ponto a destacar é que, sendo São Sebastião o protetor dos rebanhos, era também muito reverenciado pelos fazendeiros, cujo capital sempre foi importante na manutenção das capelas e matrizes. Basta verificar os nomes dos principais benfeitores das festas e membros dos Conselhos de Fábrica, quase todos fazendeiros. Na capela de Monte Verde havia um ex-voto de um fazendeiro, agradecido pelo rebanho poupado pela intercessão do santo. Na reforma da Igreja Matriz em 1961, seguida da construção do Salão Paroquial e Casa Paroquial, Pe. Bernardo dedicou a Capela do Santissimo a São Sebastião, motivo pelo qual sua imagem ali se apresentava numa peanha. O Salão Paroquial também recebeu o nome de Salão São Sebastião, hoje omitido ou ignorado.

            A título de resgate transcrevemos um recorte do jornal O Pharol, de Juiz de Fora, de 1904, relatando a festa de São Sebastião, ocorrida naquele ano:

Sexta-feira 12 de Fevereiro de 1904: Lima Duarte (de correspondente) - Devido ao mau tempo, não se pôde realizar a anunciada festa em honra a São Sebastião no dia designado; só ontem terminou a festa que teve enorme afluência de fiéis e que correu com grande brilhantismo e com a maior ordem possível. Logo após a celebração da missa que nas primeiras sextas-feiras de cada mês é aqui celebrada com toda a solenidade em intenção ao Sacratíssimo Coração de Jesus, partiu da Igreja Matriz a procissão em honra ao glorioso Martir São Sebastião, admiravelmente bem organizada, que desfilou pelas ruas da cidade, fazendo percurso de costume, recolhendo-se de novo à igreja de onde partiu. Subiu ao púlpito o reverendíssimo Padre Pedro Nogueira da Silva e antes de começar o seu sermão, ouviu-se delicioso terceto, magistralmente cantado pela senhorita Altina Tavares e pelos cavalheiros José Carlos de Souza e o provecto maestro Major Maximiano Nepomuceno. Terminado o terceto, que agradou muitíssimo, produziu emocionante e eloquente discurso o Vigário de nossa Freguesia, Padre Pedro Nogueira, dissertando sobre a vida, virtudes e martírios do Glorioso Santo, a quem era dedicada a festa. Foram nomeados festeiros para o próximo ano de 1905, o reverendíssimo Padre Pedro Nogueira da Silva e a excelentíssima Sra. Dona Carolina de Almeida Pires, virtuosa esposa do Capitão José de Sales e Almeida. Procuradores os Srs. Orozimbo Mendes de Assis e Joaquim Moreira Delgado.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

A Estrada Lima Duarte – Conceição de Ibitipoca

 

No início do século XIX, quando Lima Duarte embrionava como povoação, a vida girava em torno das sedes de fazendas, as quais concentravam a população, as atividades produtivas e economicas. Os caminhos então procuravam atender aos interesses dos fazendeiros, interligando as sedes de fazenda aos povoados e às estradas reais, de onde se podia atingir a sede municipal (Barbacena), a sede da Comarca (São João Del Rei) e a capital do Brasil (Rio de Janeiro). Por estes caminhos transitavam carros de bois, tropas, pessoas à pé e montadas.

            A chegada do primeiro automóvel, em 1914, pelas mãos de Manoel Delgado da Silva, acrescentou mais um meio de transporte, demandando por novos caminhos. Contudo, somente apartir de 1931, o Prefeito Alfredo Catão abriria a Estrada Lima Duarte a Juiz de Fora, passando pelos Bahias, obra que executou, com recursos próprios até a divisa dos dois municipios, em Valadares, finalizando-a em 1934.

            Em 1937, coube ao interventor nomeado Nominato Duque, levar a cabo a abertura da estrada para automóveis de Lima Duarte a Conceição de Ibitipoca e Santana do Garambéu. Aproveitando o leito abandonado da ferrovia nas imediações do bairro Beira Rio, começou por ali a nova estrada, seguindo pela margem esquerda do Rio do Peixe até próximo à foz do Ribeirão do Salto, cujo vale seguiu, até Conceição de Ibitipoca.

    Uma ponte com tabuleiro e guarda-corpos de madeira, apoiada em pegões de pedra, foi erguida na localidade de Salto, sob orientação do Engenheiro Pedro de Paiva Fartes. A nova estrada foi alargada e dotada de sistema básico de drenagem de águas pluviais, como se vê ainda em vários trechos. Por essa estrada podia-se ir, de Ford T, em três horas, de Lima Duarte à Santana, ou como bem registrou de informações orais o pesquisador limaduartino Ronisch Baumgratz “sair de Lima Duarte e almoçar no Jambeiro…”

Ponte sobre o Ribeirão do Salto
Acervo Afranio de Paula

           Nas décadas seguintes a estrada seguiu recebendo conservação e ajustes. Em 1949, no mandato do Prefeito Olimpio Otacílio de Paula, é construída em concreto armado a ponte sobre o Rio do Peixe no Bairro Beira Rio. Em 1960, pela Lei Estadual 2121, a estrada foi encampada pelo Estado de Minas Gerais, abrindo portas para obtenção de recursos. Em 1962, no segundo mandato do Dr. Domingos Octaviano Lima, a ponte do Salto foi modernizada, sendo o tabuleiro de madeira, longarinas e guarda corpos executados em concreto armado. Algumas pontes menores também foram executadas em concreto nessa época, e cada administração seguiu, dentro de suas possibilidades, executando manutenção e consertos.

Ponte Beira Rio
Acervo Rafael Ferreira de Paula

            No governo Liandyr Guimarães, em 1976, a estrada passa por um processo de modernização, com melhoria do traçado, alargamento, construção de muitas passagens de águas pluviais e extensão da estrada até a Lombada e o Pião, dentro do Parque Estadual de Ibitipoca.

            As obras de pavimentação foram iniciadas em 1994/1995, no segundo mandato de Carlos Alberto Barros, quando o trecho de serra, na chegada de Conceição de Ibitipoca foi calçado com pedra tosca sem rejunte, recebendo meio fio e sistema de drenagem.  Um segundo trecho, do Engenho até o Caeté foi calçado com elemento travado em 2007 no primeiro mandato de Geraldo Gomes.

            Nos anos seguintes o Estado de Minas Gerais assume de fato o controle da estrada, fazendo-a passar por uma de suas piores fases, já que nenhuma obra de vulto foi realizada e a manutenção se mostrou insuficiente, obrigando cidadãos e mesmo a Prefeitura a executarem acões corretivas e emergenciais.

            Em 2020, no terceiro Geraldo Gomes, com recursos estaduais, são retomadas as obras de pavimentação da saida de Lima Duarte até a Fazenda do Lãozinho, prolongadas em 2021, já no primeiro mandato de Elenice até o Laticinio Serra Negra. Em maio de 2023 foi iniciada a pavimentação do trecho entre Laticinio Serra Negra e o Caeté, excetuando trechos nas localidades de Agua Fria e Laranjeiras, no aguardo de definição de questões legais e burocráticas para execução, obras que se prolongam até nossos dias.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Mudanças na cidade na década de 1960


            Na década de 1960, alguns fatos produzem significativas mudanças na conformação do sitio urbano de Lima Duarte.

            Acentua-se na região o exôdo rural, com significativa transferencia de população para a zona urbana e suburbana, adensando os bairros existentes na época e provocando o surgimento de novos logradouros e loteamentos, como o bairro Recanto Alegre, Nova Era, Lago Azul, Grota, Esplanado e Várzea.

            Dois fatos também contribuíram de forma significativa para alterações na forma da cidade: a abertura da rodovia federal trecho Juiz de Fora a Caxambu e  a extinção do ramal ferroviário.

            A partir de 1964, a  abertura da BR 32, obra federal inaugurada em 1978 depois denominada como BR 267, deslocou o eixo da cidade, colocando em abandono a antiga estrada dos Bahia e a Estrada Velha para Olaria e Bom Jardim. A rua Alfredo Catão é aberta nessa época, interligando o eixo da Rua José Virgílio ao eixo da Paradinha, tornando-se logo uma das mais importantes ruas da cidade.  Da necessidade de interligar a cidade à “Estrada Nova”, abre-se uma rua entre esta e a Rua Sete de Setembro, originando o eixo a partir do qual se desenvolveria o Bairro Piúna. No mesmo sentido, abre-se a Rua Antonio Duque Filho, conhecida como Rua do Capim. A antiga Estrada do Piquete, por “cortar” a BR 267, ganha importância nessa época também, gerando a base do que se tornaria no futuro o Bairro Nossa Senhora das Graças. Ao lado do Bairro Afonso Pena, surge o embrião da Vila Belmiro, a partir de loteamento de antiga área de pasto da Fazenda da Fábrica, isolada pela passagem da BR 267.

            A extinção do Ramal de Lima Duarte da Estrada de Ferro Central do Brasil, ocorreu em 1968, com retirada dos trilhos e dormentes em 1972. O leito, ou  a Linha, como é conhecida popularmente, bem da União, uma vez abandonado, foi aos poucos sendo ocupado, gerando ruas como a Geraldo Magela de Paiva, Trinta de Outubro, Francisco Valadares e Avenida Centenario em seu trecho original, entre a Paradinha e a Rua Geraldo Magela de Paiva.

            Na Barreira, a ocupação de uma encosta gera o Morro do Querosene, batizado oficialmente de Bairro Satélite, ligado ao bairro Santa Teresinha por um prolongamento da Rua Maria Tomé. A área da  entre o atual trevo do CAPS e o Pontilhão do Albergue foi aproveitada pela Prefeitura como depósito de lixo urbano, ali queimado, diariamente. Somente mais tarde, o Poder Publico faz concretar uma laje sobre o pontilhão e estende e abre, até a Barreira, a Avenida Centenario.

            Na região do Batatal, a “Linha” passa a ser utilizada como forma de ligação à cidade, uma vez que a partir de 1972, a Prefeitura remove o lastro de britas deixado pela ferrovia. As margens do leito vão sendo ocupadas, facilitadas pelas doações de terrenos feitas pela Prefeitura, que obtém mais tarde a guarda da faixa de dominio da ferrovia, da estação da Barreira à divisa com Juiz de Fora em Valadares,adensando o povoamento da região.

            Adiante do Bairro Cruzeiro, se desenvolve nessa época o Bairro Santo Antonio, no entorno do Campo do Vila. Começa o adensamento do bairro Poço da Pedra, ocupando o leito ferroviário abandonado e a margem da Estrada Velha para Olaria, facilitada por aquisição a preços mais acessiveis, doações e mesmo posses.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Os bairros São José, Santa Teresinha, Beira Rio e Matadouro

 

 

            A região do atual Bairro Cruzeiro, começou a ser mais densamente ocupada por volta de 1939, nas obras da rodovia aberta pelo Governo do Estado de Minas Gerais, ligando Lima Duarte a Olaria e Bom Jardim de Minas. Essa rodovia corresponde hoje às ruas Clemente Armando Moreira e Rua do Horto, atravessando o Rio do Peixe por uma ponte de madeira, seguindo pela margem esquerda via os atuais Bairros Santo Antonio, Poço da Pedra e localidade de Perobas.

            Essa estrada aos poucos, foi sendo ocupada em suas margens, gerando o embrião da Vila São José, que depois se torna Vila Cruzeiro, dado ao cruzeiro ali erguido em concreto em 1952, substituindo um antigo, em madeira.

            Dessa rua, um antigo caminho descia ao Rio do Peixe, atravessando-o em direção à Fazenda Ponte Funda, de onde se seguia para São José dos Lopes, Ibitipoca e Mogol, atual Rua Getulio Vargas.

            A “Rua de Baixo”, surge no prolongamento da ferrovia em 1944, com destino a Bom Jardim a partir do Triangulo de Reversão(onde estão hoje a Estação de Tratamento de Aguas e sede do Clube do Cavalo). Com o abandono das obras, seu leito é ocupado, gerando uma nova rua. As demais surgem posteriormente.     

            O bairro Santa Teresinha surge a partir de 1951, quando a população católica decide erguer uma capela dedicada à Santa Teresinha do Menino Jesus, no chamado “Pasto dos Alves”, pertencente ao Coronel José Alves. A primeira rua (atual 31 de Março),ligava a capela à Rua da Estação (atual Benvindo de Paula), sendo acrescida de uma transversal (Maria Tomé), ambas depois prolongadas.

            A partir de 1930, as obras abandonadas da ferrovia, até próximo ao atual Campo do Santa Teresinha, se tornam parte da nova estrada para Ibitipoca, São José dos Lopes e Mogol. Uma ponte em madeira é construída, fazendo a ligação da cidade com este novo caminho. Às margens desse caminho se adensa a cidade, gerando a Rua General Setembrino de Carvalho (atual Rua Joaquim Otaviano), que aos poucos vai sendo alargada.

            Neste processo de modernização, a velha ponte de madeira é feita em concreto armado em 1949. Neste mesmo ano, a prefeitura adquire imóvel e terreno na Estrada para os Mamonos, transferindo para lá o Matadouro municipal, que até então funcionava no Bairro Matosinhos.

            Na década de 1970, obras de alargamento da Rua Joaquim Otaviano provocam a remoção de alguns moradores próximo à ponte, sendo transferidos para a área da Municipalidade contígua ao Matadouro, dando ao núcleo original do Bairro Matadouro. 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Os bairros de Lima Duarte até 1939



            Formado o Centro, ao redor da Matriz de Nossa Senhora das Dores, começaram a nascer os primeiros bairros.

            Apesar de não serem as vezes, oficialmente reconhecidos como tal, são denominados pela população desde tempos antigos, fazendo parte da nossa cultura local.

            Matosinhos foi o primeiro dos bairros, formado próximo ao Centro, na antiga entrada da cidade. A origem do nome permanece uma incógnita, sendo impossível não fazer um paralelo, a ser pesquisado, com outros Matosinhos existentes em Minas, todos derivados do Matosinhos no subúrbio de Braga em Portugal, região de origem da família Delgado.

            Em seguida, nasce o bairro do Patrimônio, em terreno comprado pela Câmara Municipal de Lima Duarte para aforamento, entre 1895-1897. A iniciativa coube ao Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal Coronel José Virgílio de Paula. O terreno pertencia à Paróquia de Nossa Senhora das Dores, sendo conhecido popularmente como “Patrimônio da Santa”, nome popular que recebiam as terras da Igreja Catolica. O bairro, por isso, acabou por receber esse nome.

            O Alto de São Francisco tem origem com a construção da capela de São Francisco de Assis das Chagas, por iniciativa de Francisco Delgado Mota, benta em 1905. A primeira rua de acesso, descia em direção ao Largo, na frente da capela, aquela que hoje termina no Escadão. Com a abertura da estrada de ferro, naquele trecho, em 1923, foi cortada, sendo uma outra via de acesso aberta, gerando a atual Rua Apolo XI, seguida, na década de 1960, pela abertura da Rua Cel. Elisiario.

            A Barreira nasceu em meados da década de 1910, como forma de acesso do centro à estação ferroviária. De início, havia apenas a atual Rua Jacintho Honório, com poucas casas, quase que apenas um caminho de acesso à fazendas e localidades próximas. Uma rua nova foi aberta no local, depois de esgotados os brejos (a barreira), reta e larga, a primeira rua planejada da cidade. Recebeu popularmente o nome de Rua Nova, antes de se chamar oficialmente Avenida Barão do Rio Branco. A rua antiga, por isso, foi chamada de Rua Velha. O nome do bairro vem-lhe dos brejos em que se assenta, com chuvas gerando muito barro.

            Em seguida, nos primeiros anos de 1900, surge a Vila Afonso Pena, um prolongamento do Patrimônio, separado deste na década de 1960 com a passagem da BR 267. A criação do bairro foi uma iniciativa de João de Deus Duque Neto, em terras de sua propriedade, oferecendo lotes a amigos e favorecendo-lhes a aquisição. O nome é uma homenagem ao ex-Presidente da Republica, o mineiro Afonso Maria Moreira Pena, falecido em 1909

            No entorno da Parada Deocleciano Vasconcelos erguida em 1925, nasceu o bairro Paradinha. Antes, era apenas um pasto de várzea, sujeito a alagamentos, drenado e aterrado pela Central do Brasil. Era uma área de muito movimento, porta de entrda da cidade, favorecida pelo movimento de carga e descarga de mercadorias, e embarque e desembarque de passageiros.

            Essa era a configuração da cidade até por volta de 1939.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A Eleição empatada e anulada

             Em 1937, tomou posse a nova Câmara Municipal de Lima Duarte. Pela Legislação Estadual da época, cabia a Câmara Municipal escolher o novo prefeito. A Câmara Municipal era presidida por Manoel Oscar da Silva, tendo como secretário Manoel Otaviano Ferreira. Os demais vereadores eram Sidney Rodrigues Moreira, Nominato de Paiva Duque, Antonio Duque Filho, Dr. Olavides de Oliveira, Antonio Alves de Paula, Joaquim Antonio de Oliveira, Avelino Batista de Oliveira, Galileu Theolino da Cunha, Anísio de Assis Àvila e Washington Erotides de Ávila.

            Apresentaram-se como candidatos a Prefeito o Coronel Camilo Guedes de Morais e o escrivão Tasso de Souza. Apurados os votos, verificou-se empate. Como a lei antiga prescrevia nestes casos, assumiria o candidato mais idoso, levando a melhor o Cel Camilo Guedes de Morais, que assumiu a Prefeitura de Lima Duarte em fevereiro de 1937, sucedendo a Moacyr Catão.

Camilo Guedes de Morais


Camilo Guedes de Morais nasceu em Varzea do Carmo (atual Valadares) em 1857, filho de José Guedes de Moraes e Maria de Moraes. Na época a localidade pertencia a Rosario de Minas, integrando o Municipio de Barbacena. Posteriormente o distrito integraria o municipio de Juiz de Fora, passando em 1938 a Bias Fortes, retornando a Juiz de Fora em 1948

            Proprietário de terras, tornou-se logo prestigiado líder político na região, exercendo inclusive a função de vereador à Câmara Municipal de Juiz de Fora, de 1892 a 19895. Grande benfeitor da localidade de Varzéa do Carmo, solicitou e viu atendido o pedido de construção de uma estação ferroviária próxima à sua fazenda, tendo inclusive custeado a construção do prédio.A estação acabou sendo inaugurada em 1º de Maio de 1924, com o nome de Engenheiro Navarro, logo em seguida sendo denominada Valladares, em homenagem ao deputado federal Francisco Valladares, grande defensor e batalhador pela ligação ferroviária de Juiz de Fora a Bom Jardim, o qual aceitou a homenagem sob protestos, solicitando por telegrama ao Ministro da Viação que fosse dado ao prédio o nome do Cel Camilo Guedes, por seu mérito inquestionável. A homenagem ao grande líder acabou sendo feita na Escola do distrito, que leva o nome de Camilo Guedes de Morais.

            O Cel. Camilo Guedes, no entanto, teve um mandato curto. Meses depois o Tribunal Eleitoral de Minas Gerais anulou todas as eleições de prefeitos confirmadas a partir de resultado de desempate por idade, encerrando o mandato de Camilo Guedes tres meses depois da posse. ano de 1937 foi dos. Agitações políticas e sociais, decorrentes da insatisfação politica com as atitudes de Getúlio Vargas, colocaram o país em desordem, criando o pretexto para que Getúlio Vargas decretasse o Estado Novo,  fechasse o Congresso e ditasse uma nova constituição pelo Radio, em 10 de novembro de 1937.

            Com o Estado Novo, os municípios passaram a ser comandados por um Interventor nomeado pelo Interventor Estadual, o qual era assessorado por um Conselho Consultivo, que substituia a Camara Municipal eleita. Em Lima Duarte foi nomeado pelo Interventor do Estado de Minas Gerais, Benedito Valadares o Dr. Nominato Duque, que permaneceu à frente do cargo de 1937 a 1945.