sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A Eleição empatada e anulada

             Em 1937, tomou posse a nova Câmara Municipal de Lima Duarte. Pela Legislação Estadual da época, cabia a Câmara Municipal escolher o novo prefeito. A Câmara Municipal era presidida por Manoel Oscar da Silva, tendo como secretário Manoel Otaviano Ferreira. Os demais vereadores eram Sidney Rodrigues Moreira, Nominato de Paiva Duque, Antonio Duque Filho, Dr. Olavides de Oliveira, Antonio Alves de Paula, Joaquim Antonio de Oliveira, Avelino Batista de Oliveira, Galileu Theolino da Cunha, Anísio de Assis Àvila e Washington Erotides de Ávila.

            Apresentaram-se como candidatos a Prefeito o Coronel Camilo Guedes de Morais e o escrivão Tasso de Souza. Apurados os votos, verificou-se empate. Como a lei antiga prescrevia nestes casos, assumiria o candidato mais idoso, levando a melhor o Cel Camilo Guedes de Morais, que assumiu a Prefeitura de Lima Duarte em fevereiro de 1937, sucedendo a Moacyr Catão.

Camilo Guedes de Morais


Camilo Guedes de Morais nasceu em Varzea do Carmo (atual Valadares) em 1857, filho de José Guedes de Moraes e Maria de Moraes. Na época a localidade pertencia a Rosario de Minas, integrando o Municipio de Barbacena. Posteriormente o distrito integraria o municipio de Juiz de Fora, passando em 1938 a Bias Fortes, retornando a Juiz de Fora em 1948

            Proprietário de terras, tornou-se logo prestigiado líder político na região, exercendo inclusive a função de vereador à Câmara Municipal de Juiz de Fora, de 1892 a 19895. Grande benfeitor da localidade de Varzéa do Carmo, solicitou e viu atendido o pedido de construção de uma estação ferroviária próxima à sua fazenda, tendo inclusive custeado a construção do prédio.A estação acabou sendo inaugurada em 1º de Maio de 1924, com o nome de Engenheiro Navarro, logo em seguida sendo denominada Valladares, em homenagem ao deputado federal Francisco Valladares, grande defensor e batalhador pela ligação ferroviária de Juiz de Fora a Bom Jardim, o qual aceitou a homenagem sob protestos, solicitando por telegrama ao Ministro da Viação que fosse dado ao prédio o nome do Cel Camilo Guedes, por seu mérito inquestionável. A homenagem ao grande líder acabou sendo feita na Escola do distrito, que leva o nome de Camilo Guedes de Morais.

            O Cel. Camilo Guedes, no entanto, teve um mandato curto. Meses depois o Tribunal Eleitoral de Minas Gerais anulou todas as eleições de prefeitos confirmadas a partir de resultado de desempate por idade, encerrando o mandato de Camilo Guedes tres meses depois da posse. ano de 1937 foi dos. Agitações políticas e sociais, decorrentes da insatisfação politica com as atitudes de Getúlio Vargas, colocaram o país em desordem, criando o pretexto para que Getúlio Vargas decretasse o Estado Novo,  fechasse o Congresso e ditasse uma nova constituição pelo Radio, em 10 de novembro de 1937.

            Com o Estado Novo, os municípios passaram a ser comandados por um Interventor nomeado pelo Interventor Estadual, o qual era assessorado por um Conselho Consultivo, que substituia a Camara Municipal eleita. Em Lima Duarte foi nomeado pelo Interventor do Estado de Minas Gerais, Benedito Valadares o Dr. Nominato Duque, que permaneceu à frente do cargo de 1937 a 1945.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

A ESTRADA VELHA PARA BOM JARDIM

    No início do século XX, a Zona da Mata e o Sul de Minas eram as duas mais ricas regiões do Estado de Minas Gerais. Apesar disso a ligação entre as duas regiões era precária. Não havia ligação por ferrovia e as rodovias eram precárias. Do lado da Zona da Mata o município mais próximo do Sul de Minas era Lima Duarte, que fazia divisa com Bom Jardim do Turvo na época distrito do Turvo, atual Andrelândia. Em Bom Jardim já chegavam nessa época os trens da Rede Mineira de Viação, que seguiam até varias cidades do Sul de Minas. Ligar Lima Duarte a Bom Jardim era então, o trajeto mais fácil e eficiente, diminuindo as viagens de tremde dois dias para seis horas em media. 
    Nesse contexto nasceu o Ramal de Lima Duarte, com o objetivo de ligar Benfica (Juiz de Fora) a Bom Jardim do Turvo (Andrelandia). As obras tiveram inicio em 1911, paralisaram em 1914, foram retomadas em 1918 e aos trancos e barrancos os trilhos chegaram a Lima Duarte em 1925. O prolongamento da ferrovia até Bom Jardim não ocorreu como se esperava, fazendo com que as sociedades lima duartina e juiz forana buscassem outras formas de efetuar a ligação tão pretendida. 
    Por volta de 1935, o Engenheiro Moacyr Catão começou uma campanha em Belo Horizonte para que a ligação fosse completada com uma estrada para automoveis, de construção mais simples e rápida. Escreveu artigos na imprensa demonstrando a importância da ligação e seus benefícios para a economia do Estado. Buscando apoio politico para a causa em Lima Duarte e Juiz de Fora, formou-se uma comissão que levou a proposta ao então Interventor Benedito Valadares, governante de Minas Gerais. O governador mostrou-se sensível à proposta e deu inicio aos tramites. Após um tempo para ajustes e garantia de apoio do governo federal, marcou-se uma data para abertura das obras da rodovia. 
    No dia 13 de julho de 1937, partindo da Estação Central de Juiz de Fora, o governador e sua comitiva, embarcaram às 13 horas em trem especial para Lima Duarte. Em Penido e Valadares, localidades do percurso, foram prestadas ao chefe do governo Mineiro expressiva e vibrante homenagem. Em Lima Duarte, a população em massa acolheu o governador e comitiva, com estrondosa manifestação de regozijo. A praça do Rosário, em homenagem dos Poderes Legislativo e Executivo municipais, passou a ser denominada Praça Governador Valadares, com descerramento e inauguração de placa. Nos atos de inauguração das obras da rodovia, falaram aos cidadãos o Governador Benedito Valadares e o comandante da 4ª região militar General Franco Ferreira, que salientaram a necessidade do serviço em apreço em benefício dos altos interesses de Minas. 
  
    As obras seguiram lentamente, por vários motivos. Certamente um deles, foi a má aplicação dos recursos públicos, denunciada em vários órgãos da imprensa na região em setembro de 1938. A partir de 1939 foram executadas as obras de arte, como assinalam as datas gravadas em baixo-relevo, nas faces das obras de arte da estrada, junto com a sigla S.V.O.P. (Secretaria de Viação e Obras Públicas) A estrada, partindo do Pontilhão da Estrada de Ferro Central do Brasil, conforme planta existente no Arquivo Publico Mineiro, seguiu pelas atuais ruas Manoel Otaviano Ferreira, Benvindo de Paula e Clemente Armando Moreira, atravessando o Rio do Peixe numa ponte de madeira que havia ao final da atual Rua do Horto, abaixo da atual Primeira Ponte. Transposto o rio, circulava acima do campo do Vila, seguindo pela encosta da margem esquerda, rio acima, contornando pelo Cai N’Àgua e Fazenda de José Ribeiro de Paiva (onde foi erguido um belo bueiro). Cortava o atual bairro Poço da Pedra pela rua de baixo, na atual Rua Maria Valéria, seguindo até Perobas. Aí, numa rocha, à beira da estrada, ficaram gravadas as iniciais do nome do Engenheiro responsável pelas obras, V.A.F. (Vasco de Azevedo Filho), funcionário da Secretaria de Viação e Obras Públicas de Minas Gerais. Também em Perobas se fez construir uma fonte de água potável, por meio da captação e canalização de uma nascente de água potável, bem na entrada do povoado, sentido de quem vem de Lima Duarte. Essa fonte também traz as inscrições S.V.O.P. e o ano de 1939, grafado em baixo relevo numa cartela. Adiante de Perobas, a estrada passava pelo campo do Perobas, atravessava para a outra margem do Ribeirão Rosa Gomes logo após o campo, retornando para a esquerda até ganhar de novo o vale do rio do Peixe e tomar o vale do Ribeirão Rosa Gomes um pouco antes do Cebola. Ali a rodovia subia pela esquerda, ao lado da casa do Cebola, para se desviar das instalações da Usina Hidrelétrica que abastecia Lima Duarte de energia, inaugurada em 1918, passando bem no alto. Sempre desviando dos rios, para evitar a construção de pontes, chegava a Olaria pela parte baixa, atual Bairro Santa Marta. De Olaria a Estrada Velha seguia rumo São Sebastião da Vista Alegre (Quintilianos). Um pouco antes da entrada desse povoado, voltou-se para as bandas da localidade de Peleja, seguindo Via Vila Tomé em direção à Tabuão, cujo rumo abandona para se dirigir à Serra do Rio do Peixe e atingir Bom Jardim de Minas.
    As obras seguiram lentamente, com constantes paralisações, sendo inaugurada somente em 30 de
João Cancio, Dilermando Cruz,
Olimpio Otacílio e Assis Rodrigues
outubro de 1949, em Bom Jardim, ao tempo do Governador Milton Campos. A cerimônia contou com a presença do Secretário de Finanças do Estado de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, e do Secretário de Viação José Rodrigues Seabra, o representante do Comandante da Quarta Região Militar de Juiz de Fora, os prefeitos de Santa Rita de Jacutinga João Câncio de Oliveira, de Juiz de Fora Dilermando Cruz Filho, de Lima Duarte Olímpio Otacílio de Paula, de Bom Jardim de Minas Assis Rodrigues da Silva e de Andrelândia Simplício Dias Nascimento, além de representante do Prefeito de Carvalhos e grande massa popular. A rodovia, não pavimentada, foi executada segundo os parâmetros técnicos vigentes na época, sendo apenas compactada e ensaibrada, dotada de 7 metros de pista de rolamento, com mão e contra mão, sistema de drenagem de águas pluviais, pequenas obras de arte e inclinação controlada, conforme planta elaborada pela Seção Técnica da Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado de Minas Gerais. 
    A rodovia Lima Duarte a Bom Jardim aos poucos foi perdendo a importância. No trecho entre Lima Duarte e Olaria teve vários trechos abandonados depois que o leito da ferrovia foi abandonado e passou a ser utilizado como estrada. No final da década de 1960, a BR 267, moderna e asfaltada, toma-lhe de vez a primazia, passando a ser utilizada como estrada vicinal. 
    Um triste fim para uma rodovia tão sonhada...

sábado, 18 de maio de 2024

LIMA DUARTE e seus distritos.

 

            A formação do território do municipio de Lima Duarte, como o conhecemos hoje, passou por muitas mudanças, anexações e desmembramentos. Até 1881, quando ainda era chamado de Distrito do Rio do Peixe, integrava o território do município de Barbacena, junto com outros distritos vizinhos, como Conceição de Ibitipoca, Santana do Garambéu, Rosário do Curral (atual Rosário de Minas), Quilombo (atual Bias Fortes), dentre outros. Por essa época, por meio de diversas leis, viu transferido a seu território uma grande porção de terras, desde a Serra da Rancharia ao Ribeirão Rosa Gomes e da Várzea do Brumado às localidades de Macacos e Caeté ao pé da Serra de Ibitipoca, antes pertencentes ao distrito de Olaria, municipio de Rio Preto. Essas terras estão hoje distribuídas parte no território de São Domingos e parte no território de São José dos Lopes.

            Tornado sede de município em 1881, o então distrito do Rio do Peixe teve anexado a seu território o distrito de Conceição de Ibitipoca, compondo os dois o território municipal inicial.

            Em 1884, o munícipio do Rio do Peixe recebe o nome de Lima Duarte, é instalado e tem anexado ao seu território o distrito de Santana do Garambéu, criado em 1836 e também pertencente à Barbacena. Assim permaneceu até 1891, quando na revisão territorial feita pelo governo Republicano, foi anexado o distrito de São Domingos da Bocaina, conforme preceitua a Lei Estadual 2, de 14 de setembro de 1891

            São Domingos da Bocaina é distrito pelo menos desde 1864. Havia pertencido antes a Rio Preto. Com a transferencia da sede do municipio de Rio Preto para a Vila Bela do Turvo (atual Andrelândia) em 1864, passou a integrar o municipio do Turvo. Em 1870 o municipio de Rio Preto é desmembrado do Turvo e o território de São Domingos da Bocaina retorna ao município de Rio Preto.

            Em 1923 o senador estadual Alfredo Catão, atendendo a pedido dos moradores, apresentou e viu aprovada a Lei Estadual 843, que transferiu à Lima Duarte e anexou ao seu território os distritos de Santo Antonio de Olaria e Pedro Teixeira.

            Santo Antonio de Olaria era distrito desde 1872, pertencendo a Rio Preto, sendo a partir de 1938 denominado apenas de Olaria. Pedro Teixeira era distrito desde 1911, quando foi desmembrado do território do distrito de União (Bias Fortes), ambos pertencentes à Barbacena.

            Em 1953, o deputado estadual Lourival Brasil Filho apresentou o projeto de lei que elevava à categoria de distrito o povoado de São José dos Lopes, o qual foi aprovado, acrescentando-se mais um distrito ao municipio.

            Em 1962, em nova reorganização geográfica e política do estado de Minas Gerais foi aprovada a Lei 2764, de 30 de setembro de 1962, que desmembrava de Lima Duarte e elevava à categoria de sede de municipio as vilas de Olaria, Santana do Garambéu e Pedro Teixeira. Lima Duarte então sofre diminuição em sua área territorial, passando a contar com os distritos da Sede (entorno da cidade), Conceição de Ibitipoca, São Domingos da Bocaina e São José dos Lopes.

            A situação permaneceu sem alteração até 2022, quando pela Lei Municipal número 2090, de 20 de setembro de 2022, foram criados os distritos de Manejo e Orvalho. O município de Lima Duarte então passa a contar com seis distritos: Lima Duarte (sede), Conceição de Ibitipoca, São Domingos da Bocaina, São José dos Lopes, Manejo e Orvalho.

domingo, 21 de abril de 2024

Lima Duarte e o mito Tiradentes


       Até o final do século XIX, Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes, era um ilustre desconhecido da maioria do povo brasileiro.

            A Indepência do Brasil até então, tinha como “heróis” o Proclamador Dom Pedro I e seu mentor José Bonifácio de Andrada e Silva, cognominado o “Patriarca da Inedpendencia”. Localmente, cada região tinha seu “herói”, quase sempre um personagem que se destacou nas guerrilhas de combate às forças portuguesas que não aderiram a São Paulo e Rio de Janeiro de imediato, caso dos estados do Norte e Nordeste. Na Bahia, por exemplo sobressaiu a figura de Maria Quitéria.

            Com o golpe de Estado perpetrado por militares do Exército, é implantada a República no Brasil, em 15 de novembro de 1889. Rapidamente, os articulistas “republicanos” trataram de construir uma imagem positiva para o novo regime. E precisavam de alguém que de certa forma, traduzisse os ideais de independencia na ótica da  República, já que Dom Pedro e José Bonifácio eram monarquistas.

            Surge então o mito Tiradentes.

            As poucas informações a respeito do personagem podem ser obtidas nos Autos da Devassa, nome pelo qual ficou conhecida a transcrição dos depoimentos, petições e sentenças proferidas no julgamento dos inconfidentes. Propositalmente de seu conteúdo extraíram o que melhor convinha para a narrativa republicana, ignorando pontos basilares.

           


 O personagem recebe uma nova paginação. Foi representado com aparencia próxima à de Cristo Salvador, barbado e de olhar altivo, corda atada ao pescoço, facilitando a assimilação por parte do povo de seu suposto papel de “salvador da Pátria”. Palavras por ele ditas, nos Autos da Devassa, sofrem releituras e ganharam novo sentido, favorável aos tempos republicanos. A traição dos companheiros é reforçada, potencializando o ser heróico, digno de representar os que queriam “o bem do Brasil”.

            Jornais e publicações eram controlados pelo Governo Republicano. Logo, divulgaram-se muitos artigos que martelaram até que a massa assimilasse o “novo herói”.

            De um momento para outro, tudo que se relacionava ao ilustre enforcado, ganhou ares de importância, sendo extremamente valorizado. Neste contexto, uma informação surge de Lima Duarte…

            Em 1892, três anos após a Proclamação da Republica, foi localizado em Conceição de Ibitipoca, aos 115 anos, um contemporâneo de Tiradentes.

            Severino Francisco Pacheco, nascido em São Miguel do Piracicaba, declarou haver conhecido e convivido com o Tiradentes. Servindo no Regimento de Cavalaria de Ouro Preto, aos 14 para 15 anos, Pacheco conheceu de perto o Alferes, que reunia os amigos numa casa que alugou no Largo do Rosário daquela cidade, onde iam cantar modinhas e tocar violão, arte em que Joaquim José Xavier era perito. Pacheco descreveu Tiradentes como alto, simpático, de belos graços e gênio alegre e folgazão.

            As informações sobre Pacheco correram o Brasil. Logo foram solicitadas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, agora à serviço da narrativa republicana mais informações detalhadas sobre o “Herói”. O Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal de Lima Duarte na época, Major Manuel Victor de Mendonça, dirigiu-se pessoalmente à Ibitipoca, onde entrevistou longamente o lúcido Severino Pacheco, coletando o maior volume de informações que foi possível.

            As informações foram publicadas em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Juiz de Fora. Pacheco tornou-se famoso e recebeu uma pequena pensão da Câmara Municipal de  Lima Duarte que permitiu-lhe melhoras suas parcas condições de vida, até sua morte.

            Visitantes de todas as partes do Brasil vieram à Ibitipoca, conhecer o “amigo” de Tiradentes.

            Severino Francisco Pacheco faleceu em Conceição do Ibitipoca aos 22 de abril de 1894, com 117 anos. Seu funeral, custeado pelo Municipio de Lima Duarte,  foi muito concorrido, com a presença das autoridades municipais, chefiadas pelo Presidente da Câmara Tenente Coronel Major Manuel Victor de Mendonça, o qual, tornando-se amigo do falecido, fez questão de tomar a si uma das alças do caixão e levá-lo à sepultura, onde foi dignamente inumado.

            Lima Duarte entra, assim no processo de formação do mito Tiradentes.

sábado, 16 de março de 2024

Cinema: A Sétima Arte em Lima Duarte.

            O século XX trouxe muitas inovações à Lima Duarte. A maior delas, certamente foi a chegada à cidade dos primeiros aparelhos de transmissão de som e imagens, conhecidos como cinematógrafos. As imagens, até então vistas apenas fixas em fotos, reproduções ou pinturas, agora poderiam ser vistas em movimento e com som.

            A iniciativa pioneira de trazer à Lima Duarte um cinematógrafo ou projetor de imagens, coube à Manoel Delgado da Silva, o “Tineca França”, que em 1914, adquiriu e trouxe para a cidade o primeiro projetor de imagens, instalando-o em sua residência no Bairro Matosinhos, onde recebia os que desejavam conhecer a novidade.

            A população da época concorreu com entusiasmo às precárias exibições, pelas quais, a título de cooperação com o empreendimento, cobrava Tineca a quantia de um tostão, equivalente a cem réis. Tal iniciativa, até onde se sabe, permaneceu na esfera particular, sem gerar um estabelecimento especificamente destinado à atividade.

            Ao mesmo tempo, outras iniciativas foram tomadas, como a vivenciada por Afrânio de Paula ainda menino, que relatava ter participado da exibição do primeiro filme em espaço publico na cidade de Lima Duarte. A película, trazida pelo Sr Diógenes Salgado, de Andrelândia, foi exibida no Salão nobre da Prefeitura, para onde se deslocaram alguns bancos da igreja. Certamente trata-se de iniciativa posterior à pioneira, de melhor qualidade e melhor recurso técnico.

            Posteriormente, dois filhos do Major Francisco Neves, fundaram aquele que pode ser considerado o primeiro estabelecimento cinematográfico da cidade. Sabemos de sua existência por informações orais, sem contudo dispor de maiores detalhes.

           

Cine Ideal

Em 1936, Afrânio de Paula assume a diretoria da firma Nogueira & Cia, que administrava o Cinema Ideal, em sociedade com Isaías Nogueira da Gama. O Cinema Ideal funcionava em prédio situado na Rua XV de Novembro, atual Rua Antonio Carlos, com entrada ao lado do atual Clube do Minas e ao fundo do prédio onde hoje funciona o Empório.

            Dotado de palco e cadeiras para os frequentadores, o cinema passou a ocupar lugar de destaque na sociedade, seja como fonte de lazer ou servindo de palco a acontecimentos sociais de vulto. Jornais da cidade em 1930 davam conta da programação do estabelecimento, anunciando com entusiasmo a peça Acabaram-se os Otarios, “… o primeiro grande filme brasileiro synchorizado, cantado e fallado em portuguêz …” A peça era protagonizada por Genezio Arruda e foi grande sucesso no Cinema Nacional.

            Em 1940 Afranio de Paula afasta-se da direção da empresa que administrava o Cinema Ideal a qual é assumida por João Paulo de Abreu Guedes, sendo rebatizado o cinema com o nome de Cine Theatro Ìris.

            O primeiro filme colorido foi exibido em 1958, recomendado pelo Vigário da época, Padre João Severo Ramos de Oliveira. Trata-se de Marcelino Pão e Vinho, de Ladisláo Vajda, filme que marcou época, ficando em cartaz por muitos meses. Filas imensas se formaram na entrada do cinema.

             

            Outra experiência relacionada à exibição cinematográfica diz respeito a um projetor adquirido por Afrânio de Paula na década de 50, exibindo dezenas filmes em espaços públicos, como a Praça da Matriz, depois da missa, ou no pátio do Albergue de São Vicente de Paulo, nos finais de semana e em ocasiões de festa, onde se tornou uma das mais esperadas e prestigiadas atrações. Eram exibidos filmes de humor como os protagonizados por Charles Chaplin, a dupla O Gordo e o Magro, as chanchadas brasileiras, dentre outros.

            As apresentações eram noticiadas sempre com antecedência por meio de faixas e anúncios pelo Serviço de Alto Falantes da Igreja Matriz e capela do Albergue. A exibição de filmes na festa era feita num espaço coberto, destinado a esse fim, com cobrança de ingressos a preços módicos, auxiliando nas despesas e abrilhantando as festividades, que ocorriam durante todo o mês de julho. Os filmes eram alugados e chegavam em grandes rolos, embarcados na mala do Correio, via Estrada de Ferro Central do Brasil.

            O Cine Teatro Ìris marcou a vida de toda uma geração de limaduartinos. Ir ao cinema fazia parte do rolê daquela época, ficando os jovens agrupados em pequenos grupos ou mesmo passeando pelo Centro. O início das sessões de cinema era anunciado por um sistema de altofalantes instalado na entrada do cinema por meio de músicas que a tradição recolheu e mantém viva memória. Uma delas era o “Tema de Lara”, música tema do filme Doutor Jivago, composta em 1965 por Maurice Jarre.

            O Cine Thetro Íris encerrou suas atividades no fim da década de 1970, Seu último proprietário foi Paulo dos Reis Modesto. A decadência do cinema ocorreu paralela à chegada e popularização da televisão e a facilidade de acesso a Juiz de Fora, onde se dispunha de casas de exibição de melhor qualidade, melhor estrutura e maior poder aquisitivo, com exibição de filmes de sucesso e mais modernos.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Roda Seca – o coração que pulsa na memória

                

Roda Seca
Foto: Robertson Oliveira
1985

    Uma geração inteira de limaduartinos foi marcada pela existência e memória afetiva ligada à Roda Seca, monumento que se erguia bem no coração da cidade, no antigo Largo da Liberdade, atual Praça Nominato Duque.

            Antes do monumento, o local recebeu, em tempos remotos, um chafariz em coluna de ferro, erguido sobre uma base em degraus, que fornecia água para a população. Fotos das décadas de 1910 e 1920 trazem este chafariz, rodeado de pessoas em festas, enterros, procissões, sessões solenes do Tiro de Guerra e festas.

            A medida em que as residências passam a contar com a rede de água encanada, o chafariz perde um pouco de sua importância, entrando em decadência e abandono, como símbolo de um tempo de “atraso”, sendo demolido na década de 1930. Segundo relatos orais, o velho chafariz foi enviado para Olaria, na época parte do município de Lima Duarte.

            O Largo da Liberdade foi trocando de nome ao sabor da politica, sendo denominado Praça Getúlio Vargas e depois Praça Nominato Duque. Na memória dos moradores dos bairros, segue denominado como Largo, como o denominam até hoje os moradores com mais de 40 anos da Barreira, Bairro Cruzeiro e Afonso Pena.

            A “Roda Seca” surge no contexto de mudanças ocorridas na década de 1960, quando a cidade passa por um processo de modernização, com a chegada da BR 267, construção de prédios em linhas modernas, calçamento de ruas, construção de novo prédio para o Fórum e uma nova rede de energia elétrica, mais potente e atualizada.

            O Governador do Estado Israel Pinheiro (PSD) deu um prazo de 12 dias para o Prefeito Análio Moreira (UDN), construísse um monumento para abrigar a Placa de inauguração do novo sistema de distribuição de energia elétrica, que substituiu a Companhia Regional de Eletricidade, que forneceu energia à cidade de Lima Duarte desde 1918. Apesar de adversário politico do prefeito municipal, o que por lógica seria improvável, coube ao cidadão Lindomar de Paula Guimarães, professor do Ginásio Estadual de Lima Duarte e estudante de Direito em Juiz de Fora, aceitar o desafio proposto pelo governador, de que era correligionário e projetar e executar a construção do monumento em apenas 10 dias.

            O próprio professor Lindomar nos traz a descrição do monumento e seu simbolismo:

            “… As duas hastes como ponteiros de um relógio simbolizavam o tempo. Eram revestidas com pastilhas cerâmicas nas cores vermelha (Luta) e branca (Paz), uma metáfora da vida, feita de lutas e paz. A luta na paz levaria à vitória, simbolizada no V formado pelo encontro dos ponteiros.

            A placa documentando a inauguração do novo sistema de distribuição de energia elétrica era ligada a uma roda denteada, simbolizando a indústria, destacando o papel da energia elétrica para o bem estar e o desenvolvimento humano.

            No ponteiro horizontal havia um registro rotativo emissor de água e embaixo, um canteiro de grama (água e verde), mostrando o respeito à sustentabilidade ecológica, com base em principios defendidos por Le Corbusier. A posição dos ponteiros indicava qual deveria ser o sentido do caminhar, individual e coletivamente, ou seja, andar para frente e para cima, nunca para baixo.

            O monumento, inaugurado dia 30 de agosto de 1969 segundo Lourival Brasil, seria apelidado popularmente de Roda Seca, certamente pela interrupção do fluxo de água em seu aspersor. Sua existência marcou profundamente a vida de toda uma geração, que fez dele ponto de encontro, local de longos bate papos, ponto de referência. Os jovens se aproveitavam de sua posição privilegiada para paqueras, tendo sua silhueta, iluminada pela lua, testemunhado muitos encontros, que redundaram em namoros, noivados e casamentos. Durante o dia, era a vez dos mais velhos se reunirem ao seu redor, comentando fatos do cotidiano, relembrando velhas histórias.

            Nos Carnavais e festas todos nele se apinhavam, para ver a banda e os blocos passarem. Os veículos, naquela época podiam circulá-lo, e dependendo do movimento na “rua” descer ou voltar tomando outros rumos.Quem queria ser visto ou lembrado, passava pela “Roda Seca”

            Apesar de sua importância como marco histórico, presença significativa na cena urbana, memória coletiva e lembranças individuais, o monumento foi demolido pela Prefeitura de Lima Duarte em 1989, dando continuidade ao processo de obstrução e secção da principal rua da cidade, para a construção do Calçadão.


domingo, 7 de janeiro de 2024

ALICE DELGADO - uma vida dedicada ao Social.

 


            Hoje destacamos a figura de Alice Delgado, limaduartina ilustre, que será homenageada no Iº Forum de Desenvolvimento, que acontece em Lima Duarte, de 20 a 23 de fevereiro deste ano. A homenagem é um tributo à atuação da cidadã Alice de Paula Delgado na promoção do desenvolvimento das pessoas, como base do desenvolvimento da sociedade.

            Nosso objetivo é apresentar essa sua faceta, sem detrimento de outras, uma vez que pesquisas básicas revelam à cada dia novas atividades e experiências que desenvolveu, sozinha ou em grupo, sem que nunca possamos concluir. Seguiremos nas pesquisas...

 

Dados Biográficos

    Alice de Paula Delgado nasceu em Lima Duarte aos 06 de janeiro de 1938, filha de Pedro Cândido Delgado, cirurgião-dentista e de Alzira de Paula Delgado, professora de ensino primário no Grupo Escolar Bias Fortes.

         

Alzira e Pedro Candido
Por parte de pai, era neta de Maria Venância Delgado e Joaquim Cândido da Silva. Maria Venância era filha de Francisco Delgado Mota e Ana Cândida de Jesus. Joaquim Cândido era filho de Joaquim Inácio da Silva e Cândida Maria de Jesus, ambos de Rosário de Minas.

            Por parte de sua mãe Alzira, Alice era neta de Benvindo José de Paula e Maria Carlota de Paiva. Bemvindo de Paula descendia de Manoel José de Paula Rodrigues e de Inocência Jesuína da Cunha. Maria Carlota por sua vez era filha de Joaquim José de Oliveira e Carlota Augusta de Paiva.

            Alice Delgado fez os estudos primários básicos em Lima Duarte, seguindo para Juiz de Fora, onde formou-se professora. Em Juiz de Fora exerceu o Magistério por longos anos até se aposentar, quando passa a dividir seu tempo entre Juiz de Fora e Lima Duarte, onde ainda vivia e residia sua mãe.

 

Atuação na comunidade

            Católica praticante, exerceu por toda a existencia a função de catequista, preparando criancas e adolescentes para a Primeira Eucaristia, Perseverança e Crisma. Atuou também na Ordem Franciscana Secular, como membro da diretoria e formadora.

            Seguindo em sua ação na Igreja e inspirada nos ideais de Dona Zilda Arns, funda em 1998 em Lima Duarte, um núcleo da Pastoral da Criança, desenvolvendo com um dedicado grupo de agentes todas as práticas relacionadas à diminuição da desnutrição e mortalidade infantil,como produção e difusão da multimistura, pesagem periódica, uso do soro caseiro, distribuição de agasalhos, roupas e medicamentos, encaminhamentos para tratamentos e palestras instrutivas aos pais. Atuou também na formação de agentes da Pastoral da Criança, ampliando as ações nos bairros de periferia e comunidades mais distantes e carentes, trabalhando pela melhoria da qualidade de vida das crianças e suas famílias. O núcleo da Pastoral da Criança de Lima Duarte tornou-se referência em toda a Arquidiocese de Juiz de Fora, por sua atuação e eficiência.

            Oriunda de uma família com elevado grau de comprometimento social, participou, incentivou e colaborou com todas as iniciativas de caráter filantrópico e assistencial ocorridas na cidade, notadamente as realizadas em apoio ao Albergue da Sociedade São Vicente de Paulo, comandado por seu tio Afrânio de Paula e à Santa Casa de Misericórdia de Lima  Duarte, idealizada por sua avó, Maria Carlota.

            Produtora rural, manteve e desenvolveu a Fazenda Bom Retiro, administrando-a em nome de seus irmãos e co-herdeiros, envolvendo-se pela mesma forma em todas as questões relacionadas ao produtor rural.

           

Alice Delgado
Foto: Jornal O Sabiá

Pensando na política partidária como forma de promover o desenvolvimento social e cidadão, filia-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) em 02 de abril de 1992, seguindo os passos de seu sobrinho Paulo Delgado, professor universitário, um dos fundadores do PT e Deputado Federal reeleito para várias legislaturas, de 1987 a 2011. Uma vez filiada, desenvolve intensa atividade partidária, sendo indicada para concorrer ao cargo de vice-prefeita pelo Partido dos Trabalhadores na chapa que compôs com o professor Julio César de Paula, candidato a prefeito nas eleições municipais de 1992. A chapa, apesar de não sair vencedora, produziu uma campanha diferenciada, conciliando arte, entretenimento e engajamento social, reunindo em todas as localidades lideranças comunitárias para diálogo e troca de experiências, marcando época.

            Numa atuação cada vez mais marcante no meio social, recebe em 08 de março de 2002 a homenagem do Poder Legislativo de Lima Duarte no ensejo das comemorações do Dia internacional da Mulher. Nesse mesmo ano,em agosto, vamos vê-la festejando a inauguração de importantes melhoramentos nas dependências do Albergue de São Vicente de Paulo em Lima Duarte, realizados em sua maior parte, por meio de recursos obtidos por seu sobrinho e então deputado federal Paulo Delgado, junto à empresa CBMM – Cia brasileira de Mineração e Metalurgia.

            Participou como delegada municipal, representando Lima Duarte na Conferência Estadual de Segurança Alimentar, realizada em Belo Horizonte nos dias 2 e 3 de dezembro de 2002, tendo como companheiros Adélo de Souza Fernandes e Francisco Carlos Evangelista. Nessa conferência estebeleceu-se as bases da política de segurança alimentar do Estado de Minas Gerais.

            Vale realçar também sua participação e atuação nas atividades da Associação Mãos Mineiras de Manejo, transmitindo conhecimentos por meio de palestras e oficinas, além de um forte engajamento.

            Atuou na Comissão Paroquial que promoveu adesão e coletou assinaturas viabilizando o abaixo assinado que solicitava a apreciação, pelo Congresso Nacional do anteprojeto de lei de iniciativa popular, punindo a compra de votos e o uso da máquina pública. Obtida a aprovação da lei, que recebeu a denominação de Lei Federal 9.840, de 1999, fomentou e fez criar em Lima Duarte um Comitê, destinado a conscientizar a população eem geral e o eleitorado em específico sobre as consequências da compra de votos, além das implicações penais. O Comitê promoveu distribuição de folders, divulgação de mensagens por meio de carros de som e reunião com candidatos e chefes políticos.

            A atuação de Alice na área social vai muito além do que aqui citamos. Sua residência era diariamente ponto de convergência de dezenas de pessoas, em busca de auxilio material, aconselhamentos, troca de idéias, um bom papo, um cafezinho e mesmo encaminhamentos. Com sua vasta rede de contatos em Lima Duarte, Juiz de Fora e outras cidades, obtinha todo tipo de apoio à demandas, principalmente nas áreas de saúde e assistência social. Com seu apoio e influência, aliados a uma tenacidade e perseverança sem igual, muito se fez em beneficio do socorro e da promoção da dignidade humana, num esforço em que contava com apoio de  irmãos, primos e amigos.

            Os de melhor memória lembrar-se-ão de um Fiat 147 na cor azul, veículo pau para toda obra, que, conduzido por “Dona Alice” era sinal de esperança e luz para muitas pessoas.

            Ao longo do tempo, sentindo o peso dos anos, Alice Delgado reduziu, sem contudo paralisar totalmente, suas atividades sociais. Permaneceu atuante, principalmente em demandas familiares, seguindo seus propósitos e princípios.

            Após um período adoentada, veio a falecer em Juiz de Fora, aos 22 de junho de 2021. Terminava assim a trajetória de uma grande liderança de Lima Duarte, cuja ausência se faz sentir ainda hoje, num momento em que, com raras exceções, é quase nula a existência de ações cidadãs, desprovidas de interesses partidários, ideológicos ou eleitoreiros.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O slogan oficial de Lima Duarte

             Ao longo do tempo, foi-se convencionando adicionar aos nomes das cidades, slogans e títulos, que por vezes até chegam a substituir os nomes em documentos oficiais ou mesmo publicações. Estes títulos ou slogans, muitas vezes extraoficiais, acabam sendo dotados pela Municipalidade de forma oficial, tornando-se as vezes até mesmo obrigatórios em publicações e documentos oficiais.

       Temos ao lado o exemplo de Juiz de Fora, cognominada de “Manchester Mineira”, uma comparação feita nos tempos áureos da industria na cidade, pujante de tal forma a poder ser comparada à cidade de Manchester, na Inglaterra. A mesma Juiz de Fora foi também chamada de Barcelona Mineira, pelos mesmos motivos, por Rui Barbosa. Mas oficialmente seu título é “Princesa de Minas”, que inclusive consta no hino da cidade.

            Barbacena é a “Cidade das Rosas”, uma alusão à forte produção de mudas de roseiras e rosas que se desenvolve em suas terras. O Rio de Janeiro é a Cidade Maravilhosa, por seus atrativos naturais e ótima localização, além de pólo cultural e artístico. Petrópolis ostenta o título de “Cidade Imperial”, por ter sido erguida a mando de Sua Alteza Dom Pedro II, que ali fez construir uma catedral e um palácio de verão.

            No caso de Lima Duarte foi adotado um slogan, que buscou traduzir a preciosidade e o valor que a cidade representa para seus cidadãos e para o Estado de Minas Gerais.

            A Lei nº 561, aprovada em 09 de dezembro de 1977, determina que seja adotado oficialmente nos impressos municipais um slogan, como consta a seguir:

 

            “O POVO DO MUNICÍPIO DE LIMA DUARTE, POR SEUS REPRESENTANTES NA CÂMARA MUNICIPAL, VOTOU E EU EM SEU NOME SANCIONO A SEGUINTE LEI:

            Art. 1º - Fica o Executivo e Legislativo Municipal autorizados a adotarem oficialmente em todos seus impressos o seguinte Slogam: "LIMA DUARTE, PÉROLA INCRUSTADA NAS MONTANHAS DE MINAS GERAIS".

            Art. 2º - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução desta Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão fiel e inteiramente como nela se contém.

            Prefeitura Municipal de Lima Duarte, aos 09 de dezembro de 1977.

            Era Prefeito Municipal na época o Dr. Domingos Octaviano Lima, que exercia o mandato de Prefeito pela terceira vez.

            Vc sabia?

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Caxias em Lima Duarte

    



Duque de Caxias

    1842 entrou para a História do Império como o ano das agitações politico-militares, que acabaram batizadas como Revolução Liberal de 1842. Naquela época haviam apenas dois partidos no Brasil, o Liberal e o Conservador. Se por um lado, no período Regencial houve um crescimento da influencia dos Liberais, a Maioridade antecipada de Dom Pedro II, acabou por reforçar os Conservadores, que elegeram um Gabinete e introduziram profundas reformas. 
    Descontentes com essas reformas, membros do Partido Liberal nas províncias de São Paulo e Minas Gerais tomaram armas, destituíram os presidentes de província e iniciaram uma marcha em direção ao Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, o líder da revolução era Teófilo Otoni, que iniciou o movimento em 10 de junho de 1842 em Barbacena logo declarada capital do movimento revolucionário. Os liberais aclamaram Presidente da Província o senhor Feliciano Pinto Coelho da Cunha, anos mais tarde agraciado com o título de Barão de Cocais. 
    Combates ocorreram em várias regiões de Minas, espalhando-se logo o movimento. O Caminho Novo, principal estrada de ligação do Rio de Janeiro com Minas Gerais foi tomado pelos Liberais. A Ponte do Paraibuna em Simão Pereira foi de início ocupada e depois incendiada para impedir as tropas imperiais de entrarem em Minas.
    Diante disso, as tropas imperiais tiveram que entrar em Minas pela região de Rio Preto, onde chegaram em 15 de julho de 1842, o então Barão de Caxias e seu irmão, o Conde de Tocantins. No mesmo dia, o Conde de Tocantins e o Tenente Gabriel Monteiro de Barros sobem em direção à Serra Negra, acompanhados da Terceira Coluna (de Infantaria), preparados para enfrentar renhido combate na Garganta do Alto da Serra.
    Os Liberais haviam montado acampamento no alto da Serra Negra, onde dificilmente seriam vencidos, pela posição privilegiada que ocupavam. Na região do Rio do Peixe, chegaram a ser mobilizados mais de 700 combatentes em favor da causa liberal, reunindo homens de Aiuruoca, Santana do Garambéu, Ibitipoca, Carrancas, Turvo (Andrelândia) e mesmo moradores de Dores do Rio do Peixe. Ao final, toda essa força desertou, desanimada com o avanço das tropas imperiais.
    No dia 16, a Terceira Coluna dobra a Serra Negra sem encontrar resistencia, verificando que o acampamento dos liberais no alto da serra havia sido abandonado. Seguiu então dia 17 em direção à Dores do Rio do Peixe, acampando no Ribeirão de Santana, à margem esquerda do Rio do Peixe. Ali permanece estacionada, seguindo depois em parte para Várzea do Bromado, onde acampa.
    O Barão de Caxias chega com a Cavalaria dia 29 de julho, acampando ao lado do antigo cemitério de Olaria. No outro dia segue para Ribeirão de Santana, onde assume o comando das tropas. Nesse mesmo dia, o Barão de Caxias recebe a informação de que Feliciano teria se retirado de Barbacena para São João del Rei. Segue então com piquete de Cavalaria em direção à São João de Rei, retornando para Rio do Peixe e subindo pela Várzea do Bromado. A Terceira Coluna, toma o mesmo destino seguindo em marcha para Varzea do Bromado, onde sobe a Serra da Rancharia em direção ao Pinhal, donde marcha dia 31 para Ibertioga, a 30 km do Pinhal. De Ibertioga, as tropas imperiais seguiram à Barbacena, e daí para a região central da província, culminando ao final na grande batalha ocorrida em Santa Luzia, onde os liberais foram derrotados em 20 de agosto.
    Entre os cidadãos do Rio do Peixe, que integraram a Terceira Coluna, combatendo até a batalha final, ao lado de Caxias, estão João de Deus Duque e seus cunhados Francisco Delgado Motta e Joaquim Delgado Motta, dentre outros.
    Entre os liberais, foram registrados os nomes de Manoel Teodoro Rodrigues, Antonio Pinto Ramiro e Manoel Teodoro de Souza.
    O Barão de Caxias seguirá sua carreira político-militar, recebendo em 1845 o título de Conde, em 1862 o de Marquês e finalmente em 1869 o título de Duque, pela qual é mais conhecido, como Duque de Caxias.
 

sábado, 7 de outubro de 2023

A Agência de Correios e Telégrafos de Lima Duarte

        A agência de Correios de Lima Duarte foi criada pelo Governo Imperial em 17 de setembro de 1866, quando o município ainda era um Distrito de Barbacena, como o nome de Dores do Rio do Peixe. Antes dessa data, as correspondências, impressos e jornais eram trazidas quase sempre por tropeiros, que as recolhiam nas agências postais circundantes, acondicionados em bornais de couro impermeáveis, sendo entregues pessoalmente aos destinatários, muitos deles aproveitando o mesmo portador para o encaminhamento das cartas-resposta.

            Nessa época, o transporte de mala postal era feito em animais de carga, que seguiam um trajeto de ida e volta, alguns dias da semana. 

            No caso de Lima Duarte, a mais antiga referência do trajeto da mala postal, pode ser visualizada na “Carta das Comunicações Postaes da Província de Minas Geraes, projetada pelo Engenheiro H. Gerber, por ordem do Exmo. Sr. Presidente da mesma Província, o Conselheiro Joaquim Saldanha Marinho”, datada de 1867 (recorte abaixo). Por ela, reconhece-se o trajeto da mala postal, que tinha como origem a Capital Imperial, Rio de Janeiro, de onde seguia em direção a Juiz de Fora, Barbacena, e Ouro Preto (capital provincial)

            O trajeto para Dores do Rio do Peixe, no mapa assinalada apenas como Dôres, seguia de Juiz de Fora a João Gomes (atual Santos Dumont), de onde era despachada para Quilombo (atual Bias Fortes) e Santa Rita de Ibitipoca. De Quilombo, seguia para “Dores” (Lima Duarte). De Santa Rita seguia para Conceição de Ibitipoca (no documento apenas Conceição). O retorno se fazia de forma inversa pelo mesmo trajeto.

   


                    As mudanças nos meios de transporte, advindas com a chegada da ferrovia, possibilitaram mais rapidez e eficiência na prestação de serviços dos Correios. Dessa forma, os antigos trajetos foram sendo adaptados a essa nova realidade.

              Em 1889, o trajeto da mala postal para Lima Duarte era feito no seguinte trajeto: Estação Ferroviária de João Aires/Santa Rita de Ibitipoca/Conceição de Ibitipoca/Lima Duarte e Quilombo (Bias Fortes), de 5 em 5 dias.

            Em 1892, partia ainda da estação ferroviária de João Aires para Santa Rita de Ibitipoca, Conceição de Ibitipoca, de três em três dias; entre Conceição de Ibitipoca e São Domingos da Bocaina, de cinco em cinco diass e entre a estação de Palmira seguindo para Quilombo e Lima Duarte de três em três dias.

                 Ao tempo do Dr. Pádua Resende no comando dos Correios, o trajeto passou a ser feito de dois em dois dias, a partir da estação ferroviária de Chapéu de Uvas, mais próxima de Lima Duarte e não pela estação de João Aires (atualmente Antonio Carlos - MG)

                    Por volta de 1909, os negociantes e fazendeiros residentes no Distrito de São Domingos da Bocaina encaminharam pedido à Diretoria Geral dos Correios do Estado de Minas Gerais, solicitando que o entroncamento da linha de Correio daquela localidade fosse feito com a agência da Freguesia de Bom Jardim de Minas, por onde já transitava, desde 1897, a Viação Férrea Sapucaí e muito mais próxima da localidade de São Domingos da Bocaina que as demais estações ferroviárias existentes na época. Apesar da logica evidente, funcionalidade e eficiência muito maiores, o pedido não foi atendido, seguindo a mala postal pelos velhos e tortuosos caminhos.

                    Em 1915, o itinerário da mala postal dos correios: seguia de Chapéu D’Uvas, para Rosário de Minas, Lima Duarte, São Domingos, Ibitipoca e Santana do Garambéu, com retorno pelo trajeto inverso.

                    Com a construção do Ramal de Lima Duarte, da Estrada de Ferro Central do Brasil, o despacho da mala postal passou a ser feito de Juiz de Fora à última estação inaugurada,  seguindo viagem em animal de carga, até a agência postal telegráfica da cidade. Dessa forma o trajeto da mala postal foi feito até 1924 até a estação de Penido, de 1924 a 1926 até Valadares e após isso até a estação Deocleciano Vasconcelos (Paradinha). As correspondências para Rosário de Minas e União (Bias Fortes) eram desembarcadas na estação mais próxima (Valadares), onde havia posto do Correio, desde 1926.

            Com a extinção do ramal ferroviário em 1968, as correspondências passaram a ser expedidas via empresa de ônibus Lima Duarte S/A, que fazia regularmente a linha Juiz de Fora a Lima Duarte. Após a substituição da Viação Lima Duarte S/A, a remessa da mala postal seguiu sendo feita pelas empresas que assumiram a concessão.

            Com o aumento do volume de correspondências e volumes a serem recebidos e despachados, a “mala postal” passou a ser transportada em veículos da própria empresa. 

sábado, 16 de setembro de 2023

Jurandyr Pires de Castro Ferreira, engenheiro chefe do Ramal de Lima Duarte.

 

A construção do ramal ferroviário que ligaria Juiz de Fora a Bom Jardim, passando por Lima Duarte, foi uma obra federal muito custosa, que se arrastou por longos anos, consumindo vultosos recursos públicos e demandando muito esforço de corpos técnicos, empreiteiros, fornecedores e operários.

            Iniciada em 1911, dividiu-se em duas grandes etapas: o trecho de Benfica a Lima Duarte e o trecho de Lima Duarte a Bom Jardim do Turvo (atual Bom Jardim de Minas). As obras foram marcadas por várias paralisações e corte de verbas, fazendo com que muitos engenheiros se sucedessem na chefia das obras neste período.

            Um deles, o Dr Jurandyr de Castro Pires Ferreira, ficou famoso por chefiar as obras no seu final de primeiro trecho, a chegada a Lima Duarte, tornando-se o mais conhecido dos vários engenheiros que chefiaram as obras. 

           Jurandyr de Castro Pires Ferreira, foi engenheiro civil, geólogo, professor universitário, jornalista e político brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro a 22 de fevereiro de 1900. Fez o Curso de humanidades no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro e formou-se Engenheiro Civil pela Escola Politécnica no Rio de Janeiro..

            Começou sua carreira aos 20 anos como Fiscal no Porto do Rio de Janeiro. Ainda jovem, como engenheiro, atuou na Estrada de Ferro Central do Brasil, assumindo em 27 de dezembro de 1922 a chefia de construção do Ramal Juiz de Fora a Bom Jardim de Minas, no trecho de Benfica a Lima Duarte. As obras da ferrovia estavam paralisadas desde 1914 em Penido, havendo até próximo de Lima Duarte apenas o leito, faltando a conclusão das obras de arte menores, da ponte sobre o Rio do Peixe e estação em Várzea do Carmo (atual Valadares), do túnel, e principalmente da passagem da ferrovia pelo centro de Lima Duarte, colocada como um “grande desafio”.

        


    O jovem engenheiro logo “mostra serviço”, fazendo com que as obras avançassem, executando logo as ações de prolongamento dos trilhos até Várzea do Carmo. Por outro lado, apresentou à Central um novo projeto de passagem pelo centro da cidade, determinando o prosseguimento das obras até atingir o Barulho, trecho onde foram necessárias muitas obras de contenção de encostas e longos e elevados aterros e cortes. Projetou também as plantas das estações ferroviárias de Várzea do Carmo (atual Valadares), Orvalho, Manejo, Parada de Lima Duarte e Estação de Lima Duarte (Barreira).

            Seu maior objetivo era fazer com que os trilhos atingissem a cidade de Lima Duarte,  fato que ocorreu pela primeira vez em 08 de dezembro de 1925, com a chegada de uma comitiva vinda de Juiz de Fora num “trem de lastro”, na Parada de Lima Duarte, construída em terrenos de João Avelar, hoje área conhecida como bairro Paradinha!

            Atingindo seu objetivo, o Dr. Jurandyr permanece em Lima Duarte, chefiando as obras do ramal até 29 de dezembro de 1927. Meses antes havia pedido afastamento da função por não concordar com os valores majorados pagos pela Estrada de Ferro Central nas medições...

            De Lima Duarte vai assumir a chefia das obras do ramal Petrolina a Teresina. Logo em seguida assume a função de Chefe de Gabinete do Ministro da Viação e Obras Públicas.

            Inicia então sua carreira politica. Foi também deputado federal nas legislaturas de 1946-1951 e 1959-1963, sendo Deputado Federal Constituinte pelo Estado da Guanabara, filiado à UDN. No mesmo ano, deixa a UDN e filia-se ao PSD.         

            Paralelas às atividades partidárias segue sua carreira profissional. Em 1950 é nomeado Diretor comercial da Estrada de Ferro Central do Brasil. Em 1951 é nomeado Presidente do IBGE. Exerce também a Cadeira de Professor de Urbanismo e Arquitetura, Escola de Engenharia da Universidade do Brasil.

            Como jornalista, dirigiu a revista Técnica e Arte, colaborou nas revistas O Brasil Técnico, Viação, Diretrizes, Revistas das Estradas de Ferro e Revista do Clube de Engenharia.

            Foi também Presidente da Confederação das Associações de Engenheiros Ferroviários do Brasil.          

            Como estudioso e pesquisador compôs e publicou o Trato de Mecânica econômica; Derrocada de preconceitos; Esnobismos técnicos; Príncipios gerais da higiene hospitalar; Tendências do estilo; Abaixo as Máscaras.

            Faleceu no Rio de Janeiro a 4 de maio de 1982.

 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Oscar Baumgratz, o grande construtor.

 

No século XIX, quando a povoação do Rio do Peixe deu seus primeiros passos em direção à urbanização, com a formação do núcleo original da atual cidade, as construções eram feitas com materiais encontrados na própria natureza.

            As árvores de lei, como perobas, braúnas e aroeiras, por sua resistência aos cupins, viravam esteios, linhas e vigas das paredes e telhados. Os cedros e canelas, macios e facilmente trabalháveis, viravam folhas de portas e janelas, resistentes às chuvas e ao sol.         As palmeiras eram derrubadas e abertas a machado, gerando as ripas que suportavam as telhas de capa e bica, por aqui mesmo fabricadas.

            As paredes eram feitas de trançados de bambus, ripas de coqueiro ou bambu, barreadas com uma mistura de terra de barranco, esterco de boi, capim picado e tabatinga.

            Tudo isso repousava sobre alicerces de pedra seca, tiradas dos matacões no meio dos pastos ou nas pedreiras. Assim foram construídos todos os prédios, da mais humilde casa dos homens à Matriz, até 1872.

            Por volta de 1870, uma família de imigrantes alemães chega à cidade, liderada por Carlos Frederico Baumgratz, que acabara de construir a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte em Barbacena. O fazendeiro João Ribeiro de Paiva o convidou para construir em nossa cidade a Igreja do Rosário.

            Aqui chegando, Carlos se estabeleceu na “Várzea”, entre a Barreira e o centro, formando sua olaria e construindo em 1872, a primeira casa erguida em tijolos da vila do Rio do Peixe, atual cidade de Lima Duarte. Casando-se com Ana Hotun, em 1876, Carlos teve com ela, cinco filhos, dos quais um se destaca, seguindo a tradição construtora do pai.

            Oscar von Baumgratz nasceu na então vila do Rio do Peixe, atual Lima Duarte, aos 8 de setembro de 1881. Foi sem dúvida, um dos maiores construtores do início do século XX em Lima Duarte.

Oscar Baumgtatz e Rita Venâncio


 

















    Suas obras incluem muitos casarões no centro da cidade, igrejas como a do Rosário em Ibitipoca e   inúmeras fazendas, espalhadas pelo interior do município.

            Naquela época era comum o empreiteiro   assumir toda a cadeia de produção, desde a   preparação do terreno com aterros e desaterros, a   extração e transporte de pedras para os alicerces, a   fabricação de tijolos, derrubada e preparação de todo   o madeirame para telhados, assoalhos, portas e     janelas. Os tijolos fabricados por Oscar são conhecidos por sua qualidade e dimensões, em torno de 24cm x12cm x7cm,  além de suas iniciais “OB” gravadas em baixo relevo numa das faces. Alguns dos casarões que ergueu ainda se mantém na Rua José de Sales e outras ruas do centro, testemunhando sua obra na cidade.

            Nos quadros de segunda linha do Exército, atingiu a patente de Coronel, sendo relacionado nos Almanaques da República compondo grupo de oficiais com José de Sales, João Honório de Paula Mota, Jacinto Honório, Carlos Moreira, dentre outros.

            Faleceu em Lima Duarte aos 21 de abril de 1950, deixando ilustre e numerosa descendência, fruto de seu casamento com Rita Venância.

 

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Maximiano Nepomuceno, pioneiro da música em Lima Duarte.

 

            Um dos mais destacados cidadãos lima duartinos de seu tempo, com realizações que persistem ativas até o dia de hoje, Maximiano Estevão Nepomuceno marcou sua trajetória com atuação no magistério, na vida forense, no apostolado católico, nas atividades sociais e  filantrópicas.

            Como tantos outros, não nasceu em Lima Duarte, mas para cá se transferiu e galgou posição muito mais elevada e distinta que muitos “nativos”, por sua honradez, honestidade e fino caráter.

            Nascido aos 2 de setembro de 1855 na histórica cidade de São José d’El Rei, atual Tiradentes, onde viveu até que se fizesse jovem e completasse os estudos, transferiu-se posteriormente para Lima Duarte.

            Em Lima Duarte radicou-se inicialmente na Fazenda da Samambaia, onde vivia de ensinar as primeiras letras.

            Como era oriundo de uma região com muita tradição na música, o jovem Maximiano também era músico e passou a ensinar a teoria e prática musical aos que se interessavam, formando logo um pequeno grupo musical. A prática levou os jovens a tomar gosto pela música, surgindo logo a idéia de fundar-se uma banda de música.

            Juntamente com Jerônimo Rodrigues de Oliveira e Carlos José da Silva, Maximiano funda a primeira banda de música de Lima Duarte, a Banda Sagrado Coração de Jesus, que estreou na então Vila do Rio do Peixe, seus primeiros acordes públicos em 24 de junho de 1884.


          Transferindo-se da fazenda da Samambaia à cidade, prossegue no Magistério com ótima atuação. Prestando concurso para a carreira forense, é aprovado, e em fevereiro de 1896 tomou posse do cargo de escrivão do Primeiro Ofício profissão, encerrando sua carreira forense como Tabelião do 1º Ofício.

   

      Na foto ao lado, extraída do Album dos Municipios de 1925, vemos Maximiano Nepomuceno, integrando a Família Forense. Da esquerda para a direita, sentados: Senador Alfredo Catão, advogado -- Dr. José Maria Filgueiras, juiz municipal--Major Maximiano Nepomuceno, escrivão--- Major Francisco Neves-Escrivão De pé: Aderbal Neves, escrevente-- Pedro de Oliveira Coelho, contador, distribuidor, partidor -- Dr. Hesichio Seabra Azaror, advogado-- Tenente Nestor Neves, escrivão do crime.

         Católico praticante, frequentava assiduamente as missas e eventos paroquiais, compondo o Coral Sacro que tocava nos ofícios divinos, juntamente com Dona Altina Pires Tavares. Atuou também na Irmandade dos Passos no Apostolado da Oração e na Sociedade de São Vicente de Paulo.

            Casou-se com Dona Ambrosina Nepomuceno, de Lima Duarte, com quem teve duas filhas: Rita Nepomuceno e Maria Nepomuceno, ambas formadas professoras no Colégio Nossa Senhora das Dores em São João del Rei exrcendo por longos anos o magistério no Grupo Escolar Bias Fortes, com louvor.

            Mas nem só de música se fez a vida de Maximiano!

            Participou ativamente da criação do Grupo Escolar Bias Fortes, sendo tesoureiro da Caixa Escolar; atuou forte e incisivamente na criação da Santa Casa de Misericórdia de Lima Duarte, destacando-se no empenho pela construção das instalações e tomando posse como tesoureiro em 1923.

            Faleceu em Lima Duarte, aos 16 de novembro de 1930.

            Por seu pioneirismo na introdução da música em terras lima duartinas, foi honrado como patrono da Escola e Banda de Música Maximiano Nepomuceno.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Dom Rodrigo: A visita que abre o Sertão !

    

         
            Em 08 de Junho de 1781, uma comitiva deixa a cidade de Vila Rica, capital da Capitania de Minas Gerais. Em destaque, montado ricamente, desloca-se um jovem governador, conhecido por sua perícia e fino trato, Dom Rodrigo José de Meneses, que tinha o título de Conde de Cavaleiros, que tomou posse como Capitão General da Capitania de Minas Gerais em 20 de fevereiro de 1780, sucedendo ao governador Antonio Noronha.


Dom Rodrigo José de Meneses

            Informado dos desvios e extravios de ouro no Sertão do Rio do Peixe, resolve ele mesmo por fim àqueles crimes, integrando o Sertão Proibido ao mapa da capitania. O chamado Sertão Proibido ou Àrea Proibida” se estendia à quase toda a região banhada pelo Rio do Peixe e seus afluentes, compreendendo hoje parte do Município de Lima Duarte (distrito da Sede), parte de São Domingos da Bocaina que verte águas para o Ribeirão da Bocaina (atual Ribeirão Rosa Gomes), município de Olaria, distrito de Taboão (hoje pertencente a Bom Jardim de Minas), parte de Rio Preto (vale do Pirapetinga e Ribeirão Monte verde), município de Bias Fortes e município de Pedro Teixeira

            De Vila Rica, Dom Rodrigo chega dia 15 ao local denominado Passa Três, bem próximo às cabeceiras do Rio Paraibuna, de onde embrenha-se pelo Sertão Proibido, atingindo o vale do Ribeirão Santa Rita, atual Ribeirão Vermelho, atualmente municípios de Santa Rita de Ibitipoca e Bias Fortes, descendo 5 léguas pelo Sertão abaixo, que achou densamente povoado e ocupado por caminhos largos e trafegados, picadas, roças, ranchos e garimpos, numa área em que oficialmente ninguém poderia morar, plantar ou criar, em vista de leis promulgadas por seus antecessores desde 1736…

            Seguindo o ribeirão, a comitiva de Dom Rodrigo foi ter ao Rio Grão Mogol e deste às margens do Rio do Peixe, onde era aguardada por grande número de posseiros, com suas famílias e escravos.

            Formou-se no local logo um povoado, pontilhado de ranchos toscos, abrigando a comitiva e os posseiros, avisados da vinda do Capitão General. Este povoado foi denominado por anos seguidos de Quartel General do Rio do Peixe ou simplesmente Quartel General, como se vê em alguns mapas da época. Pela posição em que está nos primitivos mapas, a localidade situava-se em algum lugar próximo a Manejo.                                                                                                                

            Dom Rodrigo se fez acompanhar de seu ajudante de Ordens tenente Francisco Antonio Rabelo, que estivera meses antes no sertão do Rio do Peixe elaborando a lista de posseiros, e do Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Velhas Dr. Luís Beltrão de Gouveia e Almeida, que lhe serviu de auxiliar, escrivão e secretário.

            Permaneceu quatro dias neste povoado improvisado, aproveitando para recolher e despachar mais de oitocentos requerimentos de posseiros, pretendentes à posse de sesmarias e datas minerais. Neste intervalo, fabricaram-se canoas, utilizadas pela comitiva para navegarem pelo Rio do Peixe, investigando seu potencial aurífero com uso de ferros.    Na mesma ocasião, o governador nomeou um Inspetor, Guarda Mores e seus substitutos, de forma a fiscalizarem a extração de ouro, concederem novas sesmarias e datas minerais e a arrecadação de tributos.

            Do Quartel General, Dom Rodrigo foi à barra do Rio Pirapetinga, cujo vale subiu, atingindo a região de Rio Preto. Desta localidade subiu ao vale do Rio Grande, tomando o caminho para Rio das Mortes (São João del Rei), dirigindo-se daí à Borda do Campo e Vila Rica

            Assim nasceu o Distrito do Rio do Peixe, origem do atual município de Lima Duarte.