quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Assim nasceu a Paradinha

 

A primeira locomotiva nos arredores da cidade
1925
Acervo Afranio de Paula

            A terça feira, 08 de dezembro, amanheceu chovendo, aquela chuva fininha que sobrou depois do aguaceiro da noite de véspera.  

            Os três sinos da Matriz badalaram ainda cedinho, chamando pra missa. Missa, em 1925, era todo dia: padre não tinha folga, nem preguiça. O Padre Carlos Muller, com português arranhado de sotaque alemão, fez o sermão da Imaculada Conceição de Maria. De resto, tudo em latim, missa cantada, coro afinado, orquestra.

            Na saida da missa, a “rua” já se enchia de gente, de todos os lados. Todos estavam ansiosos para a chegada da “Maria Fumaça”, prevista, mais uma vez para a tarde daquele dia. A linha já tinha chegado no “Matosinhos”, depois que a “Central aterrou a várzea do João Avellar.

            Muitos já nem acreditavam que o trem chegaria. Desde 1911, se arrastavam as obras, que pararam em Penido, em 1914. De lá até à Várzea do Carmo foram mais onze anos. O deputado Francisco Valadares, tanto lutou pra linha andar, que acabou ganhando homenagem. E a Várzea do Carmo virou Valadares, em 1925.

            Agora era nossa vez.

            Às duas horas da tarde, o povo já se amontoava no Matosinhos, onde a Central levantou um prediozinho elegante, coberto de telha francesa, com uma pequena plataforma. Para nós estação, mas o Dr. Jurandir o chamava de estribo. Catão, estudado, chamava de Gare, estação em francês. Nominato completava: estribo provisório, já que a estação mesmo, era só aquela bitela, que se construía perto de sua casa…

            E assim foi. Às três horas da tarde, se ouve um apito pros lados do Barulho.  A banda Santa Cecília rasgou um dobrado e o povo explodiu em vivas e foguetes. A primeira locomotiva a entrar em Lima Duarte, foi uma 4-4-0 “American”, fabricada pela Baldwim em 1877, de número 115, que virou sucata em 1943.

            Saiu a composição de Juiz de Fora às 11h30, trazendo muita gente: um bando de engenheiros, comandado pelo Dr. Jurandir Pires Ferreira, funcionários da Central, Dr. Eduardo de Menezes Filho, presidente da Câmara de Juiz de Fora, o representante do General Estanislau Pamplona, comandante da IV Região Militar, senhoras, senhores e senhoritas da sociedade juizforana. Vieram também representantes da imprensa. Graças a eles sabemos que de Lima Duarte, havia apenas muito povo: Dr. Nominato, Presidente da Câmara de Lima Duarte e as autoridades locais não se fizeram presentes.

            E o povo explodiu em vivas ao Dr. Jurandir e ao Dr. Pires e Albuquerque!

            Falando em nome do povo de Lima Duarte, discursou o advogado Ezichio Seabra Azamor Filho, saudando os engenheiros construtores e convidando a esposa do Dr. Jurandir para cortar o cordão verde e amarelo que impedia a máquina de chegar ao ponto final dos trilhos, sendo logo após a ilustre senhora, presenteada com um belo ramilhete de flores, oferta das mulheres limaduartinas.

Inauguração da Paradinha
Acervo Afranio de Paula

          

             As 6 horas da noite, na Pensão Oliveira, foi servido um jantar aos convidados. Aí sim, Nominato apareceu e fez discurso. Salles Duarte, representante do Correio da Manhã também discursou. Agradeceu em nome da Central o Dr. Jurandir Pires, e homenageou os demais engenheiros construtores o acadêmico Theobaldo Miranda.

            A comitiva regressou à Juiz de Fora às 20 horas, mas em Lima Duarte os festejos seguiram por toda a noite, alcançando a madrugada.

            Assim nasceu a Paradinha….

            A inauguração oficial ocorreria apenas em 1º de março de 1926, quando um trem especial veio à cidade, trazendo de novo engenheiros, autoridades, alta sociedade e imprensa.

            A Parada inicialmente foi chamada pelo povo de Parada do Matosinhos e também Parada de Lima Duarte.

            Em 1930, por ocasião da Revolução que pôs Getúlio Vargas no poder, a Paradinha foi fechada por determinação da direção da Central. Reaberta e ampliada em 1937, em 1939 ganha finalmente o status de Parada, recebendo o nome de Deocleciano Vasconcelos.

            Este nome é uma homenagem a Deocleciano Cândido de Vasconcelos, que foi Secretário e Assistente Jurídico da Estrada de Ferro Central do Brasil – E.F.C.B no período de 17 de julho de 1920 a 23 de junho de 1942.

            Desativada a ferrovia em 1968, o predio permaneceu de pé até os primeiros anos da década de 1980, quando foi sendo depredado, restando apenas a plataforma e parte da estrutura de sustentação da cobertura. Ainda assim a plataforma seria cortada lateralmente em 1991, para alargamento da rua Francisco Valadares.

            Em 2015, os remanescentes da estrutura de cobertura, plataforma da estação e entorno, foram tombados como Patrimonio Histórico do Município de Lima Duarte, por meio do Decreto nº 177, de 30 de novembro de 2015.

           

 

 


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