quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Jurandyr Pires de Castro Ferreira, engenheiro chefe do Ramal de Lima Duarte.

 

A construção do ramal ferroviário que ligaria Juiz de Fora a Bom Jardim, passando por Lima Duarte, foi uma obra federal muito custosa, que se arrastou por longos anos, consumindo vultosos recursos públicos e demandando muito esforço de corpos técnicos, empreiteiros, fornecedores e operários.

            Iniciada em 1911, dividiu-se em duas grandes etapas: o trecho de Benfica a Lima Duarte e o trecho de Lima Duarte a Bom Jardim do Turvo (atual Bom Jardim de Minas). As obras foram marcadas por várias paralisações e corte de verbas, fazendo com que muitos engenheiros se sucedessem na chefia das obras neste período.

            Um deles, o Dr Jurandyr de Castro Pires Ferreira, ficou famoso por chefiar as obras no seu final de primeiro trecho, a chegada a Lima Duarte, tornando-se o mais conhecido dos vários engenheiros que chefiaram as obras. 

           Jurandyr de Castro Pires Ferreira, foi engenheiro civil, geólogo, professor universitário, jornalista e político brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro a 22 de fevereiro de 1900. Fez o Curso de humanidades no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro e formou-se Engenheiro Civil pela Escola Politécnica no Rio de Janeiro..

            Começou sua carreira aos 20 anos como Fiscal no Porto do Rio de Janeiro. Ainda jovem, como engenheiro, atuou na Estrada de Ferro Central do Brasil, assumindo em 27 de dezembro de 1922 a chefia de construção do Ramal Juiz de Fora a Bom Jardim de Minas, no trecho de Benfica a Lima Duarte. As obras da ferrovia estavam paralisadas desde 1914 em Penido, havendo até próximo de Lima Duarte apenas o leito, faltando a conclusão das obras de arte menores, da ponte sobre o Rio do Peixe e estação em Várzea do Carmo (atual Valadares), do túnel, e principalmente da passagem da ferrovia pelo centro de Lima Duarte, colocada como um “grande desafio”.

        


    O jovem engenheiro logo “mostra serviço”, fazendo com que as obras avançassem, executando logo as ações de prolongamento dos trilhos até Várzea do Carmo. Por outro lado, apresentou à Central um novo projeto de passagem pelo centro da cidade, determinando o prosseguimento das obras até atingir o Barulho, trecho onde foram necessárias muitas obras de contenção de encostas e longos e elevados aterros e cortes. Projetou também as plantas das estações ferroviárias de Várzea do Carmo (atual Valadares), Orvalho, Manejo, Parada de Lima Duarte e Estação de Lima Duarte (Barreira).

            Seu maior objetivo era fazer com que os trilhos atingissem a cidade de Lima Duarte,  fato que ocorreu pela primeira vez em 08 de dezembro de 1925, com a chegada de uma comitiva vinda de Juiz de Fora num “trem de lastro”, na Parada de Lima Duarte, construída em terrenos de João Avelar, hoje área conhecida como bairro Paradinha!

            Atingindo seu objetivo, o Dr. Jurandyr permanece em Lima Duarte, chefiando as obras do ramal até 29 de dezembro de 1927. Meses antes havia pedido afastamento da função por não concordar com os valores majorados pagos pela Estrada de Ferro Central nas medições...

            De Lima Duarte vai assumir a chefia das obras do ramal Petrolina a Teresina. Logo em seguida assume a função de Chefe de Gabinete do Ministro da Viação e Obras Públicas.

            Inicia então sua carreira politica. Foi também deputado federal nas legislaturas de 1946-1951 e 1959-1963, sendo Deputado Federal Constituinte pelo Estado da Guanabara, filiado à UDN. No mesmo ano, deixa a UDN e filia-se ao PSD.         

            Paralelas às atividades partidárias segue sua carreira profissional. Em 1950 é nomeado Diretor comercial da Estrada de Ferro Central do Brasil. Em 1951 é nomeado Presidente do IBGE. Exerce também a Cadeira de Professor de Urbanismo e Arquitetura, Escola de Engenharia da Universidade do Brasil.

            Como jornalista, dirigiu a revista Técnica e Arte, colaborou nas revistas O Brasil Técnico, Viação, Diretrizes, Revistas das Estradas de Ferro e Revista do Clube de Engenharia.

            Foi também Presidente da Confederação das Associações de Engenheiros Ferroviários do Brasil.          

            Como estudioso e pesquisador compôs e publicou o Trato de Mecânica econômica; Derrocada de preconceitos; Esnobismos técnicos; Príncipios gerais da higiene hospitalar; Tendências do estilo; Abaixo as Máscaras.

            Faleceu no Rio de Janeiro a 4 de maio de 1982.

 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Oscar Baumgratz, o grande construtor.

 

No século XIX, quando a povoação do Rio do Peixe deu seus primeiros passos em direção à urbanização, com a formação do núcleo original da atual cidade, as construções eram feitas com materiais encontrados na própria natureza.

            As árvores de lei, como perobas, braúnas e aroeiras, por sua resistência aos cupins, viravam esteios, linhas e vigas das paredes e telhados. Os cedros e canelas, macios e facilmente trabalháveis, viravam folhas de portas e janelas, resistentes às chuvas e ao sol.         As palmeiras eram derrubadas e abertas a machado, gerando as ripas que suportavam as telhas de capa e bica, por aqui mesmo fabricadas.

            As paredes eram feitas de trançados de bambus, ripas de coqueiro ou bambu, barreadas com uma mistura de terra de barranco, esterco de boi, capim picado e tabatinga.

            Tudo isso repousava sobre alicerces de pedra seca, tiradas dos matacões no meio dos pastos ou nas pedreiras. Assim foram construídos todos os prédios, da mais humilde casa dos homens à Matriz, até 1872.

            Por volta de 1870, uma família de imigrantes alemães chega à cidade, liderada por Carlos Frederico Baumgratz, que acabara de construir a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte em Barbacena. O fazendeiro João Ribeiro de Paiva o convidou para construir em nossa cidade a Igreja do Rosário.

            Aqui chegando, Carlos se estabeleceu na “Várzea”, entre a Barreira e o centro, formando sua olaria e construindo em 1872, a primeira casa erguida em tijolos da vila do Rio do Peixe, atual cidade de Lima Duarte. Casando-se com Ana Hotun, em 1876, Carlos teve com ela, cinco filhos, dos quais um se destaca, seguindo a tradição construtora do pai.

            Oscar von Baumgratz nasceu na então vila do Rio do Peixe, atual Lima Duarte, aos 8 de setembro de 1881. Foi sem dúvida, um dos maiores construtores do início do século XX em Lima Duarte.

Oscar Baumgtatz e Rita Venâncio


 

















    Suas obras incluem muitos casarões no centro da cidade, igrejas como a do Rosário em Ibitipoca e   inúmeras fazendas, espalhadas pelo interior do município.

            Naquela época era comum o empreiteiro   assumir toda a cadeia de produção, desde a   preparação do terreno com aterros e desaterros, a   extração e transporte de pedras para os alicerces, a   fabricação de tijolos, derrubada e preparação de todo   o madeirame para telhados, assoalhos, portas e     janelas. Os tijolos fabricados por Oscar são conhecidos por sua qualidade e dimensões, em torno de 24cm x12cm x7cm,  além de suas iniciais “OB” gravadas em baixo relevo numa das faces. Alguns dos casarões que ergueu ainda se mantém na Rua José de Sales e outras ruas do centro, testemunhando sua obra na cidade.

            Nos quadros de segunda linha do Exército, atingiu a patente de Coronel, sendo relacionado nos Almanaques da República compondo grupo de oficiais com José de Sales, João Honório de Paula Mota, Jacinto Honório, Carlos Moreira, dentre outros.

            Faleceu em Lima Duarte aos 21 de abril de 1950, deixando ilustre e numerosa descendência, fruto de seu casamento com Rita Venância.

 

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Maximiano Nepomuceno, pioneiro da música em Lima Duarte.

 

            Um dos mais destacados cidadãos lima duartinos de seu tempo, com realizações que persistem ativas até o dia de hoje, Maximiano Estevão Nepomuceno marcou sua trajetória com atuação no magistério, na vida forense, no apostolado católico, nas atividades sociais e  filantrópicas.

            Como tantos outros, não nasceu em Lima Duarte, mas para cá se transferiu e galgou posição muito mais elevada e distinta que muitos “nativos”, por sua honradez, honestidade e fino caráter.

            Nascido aos 2 de setembro de 1855 na histórica cidade de São José d’El Rei, atual Tiradentes, onde viveu até que se fizesse jovem e completasse os estudos, transferiu-se posteriormente para Lima Duarte.

            Em Lima Duarte radicou-se inicialmente na Fazenda da Samambaia, onde vivia de ensinar as primeiras letras.

            Como era oriundo de uma região com muita tradição na música, o jovem Maximiano também era músico e passou a ensinar a teoria e prática musical aos que se interessavam, formando logo um pequeno grupo musical. A prática levou os jovens a tomar gosto pela música, surgindo logo a idéia de fundar-se uma banda de música.

            Juntamente com Jerônimo Rodrigues de Oliveira e Carlos José da Silva, Maximiano funda a primeira banda de música de Lima Duarte, a Banda Sagrado Coração de Jesus, que estreou na então Vila do Rio do Peixe, seus primeiros acordes públicos em 24 de junho de 1884.


          Transferindo-se da fazenda da Samambaia à cidade, prossegue no Magistério com ótima atuação. Prestando concurso para a carreira forense, é aprovado, e em fevereiro de 1896 tomou posse do cargo de escrivão do Primeiro Ofício profissão, encerrando sua carreira forense como Tabelião do 1º Ofício.

   

      Na foto ao lado, extraída do Album dos Municipios de 1925, vemos Maximiano Nepomuceno, integrando a Família Forense. Da esquerda para a direita, sentados: Senador Alfredo Catão, advogado -- Dr. José Maria Filgueiras, juiz municipal--Major Maximiano Nepomuceno, escrivão--- Major Francisco Neves-Escrivão De pé: Aderbal Neves, escrevente-- Pedro de Oliveira Coelho, contador, distribuidor, partidor -- Dr. Hesichio Seabra Azaror, advogado-- Tenente Nestor Neves, escrivão do crime.

         Católico praticante, frequentava assiduamente as missas e eventos paroquiais, compondo o Coral Sacro que tocava nos ofícios divinos, juntamente com Dona Altina Pires Tavares. Atuou também na Irmandade dos Passos no Apostolado da Oração e na Sociedade de São Vicente de Paulo.

            Casou-se com Dona Ambrosina Nepomuceno, de Lima Duarte, com quem teve duas filhas: Rita Nepomuceno e Maria Nepomuceno, ambas formadas professoras no Colégio Nossa Senhora das Dores em São João del Rei exrcendo por longos anos o magistério no Grupo Escolar Bias Fortes, com louvor.

            Mas nem só de música se fez a vida de Maximiano!

            Participou ativamente da criação do Grupo Escolar Bias Fortes, sendo tesoureiro da Caixa Escolar; atuou forte e incisivamente na criação da Santa Casa de Misericórdia de Lima Duarte, destacando-se no empenho pela construção das instalações e tomando posse como tesoureiro em 1923.

            Faleceu em Lima Duarte, aos 16 de novembro de 1930.

            Por seu pioneirismo na introdução da música em terras lima duartinas, foi honrado como patrono da Escola e Banda de Música Maximiano Nepomuceno.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Dom Rodrigo: A visita que abre o Sertão !

    

         
            Em 08 de Junho de 1781, uma comitiva deixa a cidade de Vila Rica, capital da Capitania de Minas Gerais. Em destaque, montado ricamente, desloca-se um jovem governador, conhecido por sua perícia e fino trato, Dom Rodrigo José de Meneses, que tinha o título de Conde de Cavaleiros, que tomou posse como Capitão General da Capitania de Minas Gerais em 20 de fevereiro de 1780, sucedendo ao governador Antonio Noronha.


Dom Rodrigo José de Meneses

            Informado dos desvios e extravios de ouro no Sertão do Rio do Peixe, resolve ele mesmo por fim àqueles crimes, integrando o Sertão Proibido ao mapa da capitania. O chamado Sertão Proibido ou Àrea Proibida” se estendia à quase toda a região banhada pelo Rio do Peixe e seus afluentes, compreendendo hoje parte do Município de Lima Duarte (distrito da Sede), parte de São Domingos da Bocaina que verte águas para o Ribeirão da Bocaina (atual Ribeirão Rosa Gomes), município de Olaria, distrito de Taboão (hoje pertencente a Bom Jardim de Minas), parte de Rio Preto (vale do Pirapetinga e Ribeirão Monte verde), município de Bias Fortes e município de Pedro Teixeira

            De Vila Rica, Dom Rodrigo chega dia 15 ao local denominado Passa Três, bem próximo às cabeceiras do Rio Paraibuna, de onde embrenha-se pelo Sertão Proibido, atingindo o vale do Ribeirão Santa Rita, atual Ribeirão Vermelho, atualmente municípios de Santa Rita de Ibitipoca e Bias Fortes, descendo 5 léguas pelo Sertão abaixo, que achou densamente povoado e ocupado por caminhos largos e trafegados, picadas, roças, ranchos e garimpos, numa área em que oficialmente ninguém poderia morar, plantar ou criar, em vista de leis promulgadas por seus antecessores desde 1736…

            Seguindo o ribeirão, a comitiva de Dom Rodrigo foi ter ao Rio Grão Mogol e deste às margens do Rio do Peixe, onde era aguardada por grande número de posseiros, com suas famílias e escravos.

            Formou-se no local logo um povoado, pontilhado de ranchos toscos, abrigando a comitiva e os posseiros, avisados da vinda do Capitão General. Este povoado foi denominado por anos seguidos de Quartel General do Rio do Peixe ou simplesmente Quartel General, como se vê em alguns mapas da época. Pela posição em que está nos primitivos mapas, a localidade situava-se em algum lugar próximo a Manejo.                                                                                                                

            Dom Rodrigo se fez acompanhar de seu ajudante de Ordens tenente Francisco Antonio Rabelo, que estivera meses antes no sertão do Rio do Peixe elaborando a lista de posseiros, e do Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Velhas Dr. Luís Beltrão de Gouveia e Almeida, que lhe serviu de auxiliar, escrivão e secretário.

            Permaneceu quatro dias neste povoado improvisado, aproveitando para recolher e despachar mais de oitocentos requerimentos de posseiros, pretendentes à posse de sesmarias e datas minerais. Neste intervalo, fabricaram-se canoas, utilizadas pela comitiva para navegarem pelo Rio do Peixe, investigando seu potencial aurífero com uso de ferros.    Na mesma ocasião, o governador nomeou um Inspetor, Guarda Mores e seus substitutos, de forma a fiscalizarem a extração de ouro, concederem novas sesmarias e datas minerais e a arrecadação de tributos.

            Do Quartel General, Dom Rodrigo foi à barra do Rio Pirapetinga, cujo vale subiu, atingindo a região de Rio Preto. Desta localidade subiu ao vale do Rio Grande, tomando o caminho para Rio das Mortes (São João del Rei), dirigindo-se daí à Borda do Campo e Vila Rica

            Assim nasceu o Distrito do Rio do Peixe, origem do atual município de Lima Duarte.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Inauguração do Prédio do Fórum, Prefeitura Municipal de Lima Duarte até 2024

 


 

            Erguendo-se numa das pontas da Praça Juscelino Kubistcheck, o prédio da Prefeitura Municipal ocupa espaço privilegiado no espaço urbano de Lima Duarte.

            Construído para sediar a Comarca de Lima Duarte, que desde 1889 funcionou em prédio provisório, o edificio foi projetado em 1896, pelo Engenheiro do Estado de Minas Gerais Ernesto Von Sperling, que deu à construção as severas e sóbrias linhas herdadas do estilo clássico, renovadas e simplificadas, sem perda de essência.

            De sua inauguração trazemos as seguintes notas, publicadas pelo Jornal Diario de Minas, em 26 de abril de 1899;

 

INAUGURAÇÃO DO FÓRUM

 

            A 9 do corrente (abril de 1899) realizou-se festivamente a instalação do Fôro e das prisões no novo edificio da Cadeia, cujas obras foram contratadas por 69 contos de réis com o Major Joaquim Delgado Motta.

            É uma casa muito elegante pela sua moderna arquitetura.

            Essa festa, promovida pelas autoridades e membros do Fôro, revestiu-se de grande solenidade e foi muito concorrida.

            Presidiu a sessão o honrado Juiz de Direito da Comarca, Dr. Hamilton de Paula, tendo aos lados o Dr. Canuto Peixoto, juiz substituto, Alfredo Catão – Promotor de Justiça, Alferes Jerônymo Rodrigues de Oliveira Junior – Delegado de Polícia e Jacintho de Paula – 1º Juiz de Paz, servindo o escrivão Francisco Neves.

            Antes da instalação, pelo Reverendíssimo Padre Pedro Nogueira, foi dada a benção ao edifício. O Dr. Hamilton de Paula proferiu um belo discurso que foi muito aplaudido e depois falou o Promotor de Justiça. Entusiásticas aclamações foram feitas pelos oradores aos nomes dos Drs. Bias Fortes, Henrique Diniz, Alfredo Pinto e major Joaquim Delgado Motta, bem como ao governo do Dr. Silviano Brandão.

            Tocou durante o ato a excelente banda de Música Guarani.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Vila Belmiro ou Vila Belmira?

     È comum vermos as duas formas sendo ditas, repetidas e defendidas.

    Até mesmo órgãos do Governo Municipal tropeçarem na grafia deste belo bairro, situado à margem da BR 267, tendo como vizinhos os bairros Patrimônio e Afonso Pena.

    Dos bairros da cidade é relativamente recente, posterior à abertura da BR 267, na década de 1960, que cortou e isolou terras de pasto pertencentes à Chácara dos Duque.

    Neste local residia Lincoln Moreira Duque, um dos herdeiros, que vislumbrou a possibilidade de lotear a área isolada pela “Estrada Nova”, transformando-a em mais um bairro da cidade.

    A iniciativa obteve pleno êxito, sendo afixada uma grande placa no local, anunciando a venda de lotes no local.

Lincoln Duque em momento de descontração com jovens desportistas
Acervo Clodoveu Riolino 

    Para denominar o novo bairro, Lincoln Duque e herdeiros escolheram homenagear sua mãe Belmira Moreira Duque.

    Dessa forma, fica claro que o nome do bairro é VILA BELMIRA e não Vila Belmiro.

    Mas de onde vem o tal Belmiro?

    Machismo à parte, todo bom lima duartino sabe da importância e do amor de Lincoln Duque para com o esporte, principalmente o futebol, de que foi grande incentivador. Como sabemos, Vila Belmiro é a sede do Santos Futebol Clube, cremos que acabou ocorrendo aí uma associação de idéia do amor pelo futebol com uma homenagem a um grande clube.

    Se você já sabia, parabéns, tem boa memória e informação.

    Se não sabia, ajude outros a conhecer, compartilhando a informação!

quarta-feira, 15 de março de 2023

Ibitipoca x Campos do Jordão: uma saudável disputa



    No início do século XX, a tuberculose ceifava vidas em todas as classes sociais, levando à sepultura milhares de pessoas, muitos deles ainda muito jovens. A sociedade da época mobilizou-se criando em cada estado grandes movimentos de combate à doenca, que cuidaram de buscar o que de melhor havia na profilaxia e tratamento. Em Minas Gerais foi criada a Liga Mineira contra a Tuberculose, tendo como principal articulador o médico Dr. Eduardo Augusto de Menezes.

Dr. Eduardo Augusto de Menezes

    Naquela época ainda não haviam sido produzidos os antibióticos, e o tratamento das afecções respiratórias mais graves como a tuberculose era feito basicamente com a remoção dos pacientes para locais mais frios e secos, onde eram submetidos a isolamento, dietas específicas e até cirurgias corretivas. Locais com clima seco e frio ficaram famosos, abrigando pacientes durante todo o tratamento ou mesmo até a morte, fato corriqueiro e quase certo na maioria dos casos.

    A fama do clima de Conceição de Ibitipoca, facilitado pela elevada altitude, fez com que para ali se dirigissem por recomendação médica, muitas pessoas em busca da cura, caso do proprietário da Fazenda do Tanque, do Padre Manoel Maria e do famoso Cônego Carlos Octaviano Dias, todos "curados" pelo bom clima de Ibitipoca.

    Em 1906, João de Deus Duque Neto animado pela idéia de cooperar na luta contra a tuberculose, entrou em contato com as autoridades do município de Juiz de Fora, com o objetivo de instalar na Serra Grande (Ibitipoca) um grande hospital para tratamento de tuberculosos. Destes encontros, formalizou-se a criação de uma comissão de notáveis, que de Juiz de Fora veio a Lima Duarte em agosto de 1906, chefiada pelos médicos Eduardo de menezes e João Penido Filho. A "Comissão Científica" visitou a cidade e também a Serra Grande, onde efetuou vários testes e experimentos, comprovando a excelência do clima da "Serra"para o tratamento da tuberculose. Destes experimentos elaborou minucioso relatório que foi apresentado às autoridades sanitárias e governamentais, solicitando recursos para a instalação do empreendimento no planalto ao pé do Pico do Pião.

        Ao mesmo tempo, os paulistas buscavam apoio para a instalação de empreendimento de mesma proporção em Campos do Jordão, região também notável pela excelência de seu clima. Nos dois locais, a dificuldade era o acesso, comprometendo-se o Dr. Eduardo deMenezes a promover, ele mesmo a construção de uma rodovia ou ramal ferroviário de Juiz de Fora a Lima Duarte e de lá à Ibitipoca.

    Dos dois lados nenhum esforço foi poupado pelo sucesso da iniciativa, tendo em vista o terror provocado pela doença e o grande numero de perdas por ela provocadas. O governo do Estado de São Paulo saiu na frente e em 1910, assumiu o compromisso de implantar uma ferrovia entre a cidade de Pindamonhangaba e os "Campos do Jordão". Ibitipoca, apesar de todos os requisitos favoráveis, e do empenho da grande cidade de Juiz de Fora, a mais desenvolvida de Minas Gerais na época, perdeu a disputa, caindo em esquecimento o projeto e todos os benefícios que poderia oferecer.

    De minha parte fico a imaginar como seria Ibitipoca hoje, caso o empreendimento tivesse sido implantado...



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Uma pista de pouso de aviões em Lima Duarte

    Em 07 de Abril de 1931, o oficial Tenente Paulo Tavares Drummmond, integrante do Corpo de Aviação da Marinha, esteve em Lima Duarte. Aqui chegando, entrou em contato com as autoridades municipais, sendo recebido pelo então Prefeito Municipal Alfredo Catão e seu filho Engenheiro Moacyr Catão.

    O oficial comunicou-lhes a missão de estabelecer em Lima Duarte uma base para pouso e decolagem de aeronaves do Corpo de Aviação da Marinha, que iriam empreender uma missão de reconhecimento do território brasileiro, partindo do Rio de Janeiro a Belém do Pará, passando pela cidade de Formosa em Goiás.

    Lima Duarte foi escolhida por ser ponta de linha da Estrada de Ferro Central do Brasil, possibilitando a chegada por ferrovia de combustível até a base de apoio, possibilitando o reabastecimento de combustível das aeronaves. 

    Catão de pronto apoiou a iniciativa, seguido por seu filho Moacyr, que imediatamente apresentou ao Tenente Paulo Drummond, mapas com indicações de vários locais onde se poderia abrigar a tal pista.

    Dentre estes locais, foi escolhida a Várzea do Dr. Nominato, perto da Estação da Barreira, sendo rapidamente executados ali serviços de roçada, capina, drenagem e nivelamento do terreno.

    A Expedição cumpriu seu cronograma, com pouso e decolagem das aeronaves em Lima Duarte.

    Agradecida, a Marinha expediu moção de agradecimento ao Município de Lima Duarte, pelo zelo e competência demonstrados na rápida execução da pista.

    A passagem de aviões por Lima Duarte repercutiu positivamente. Houve inclusive a fundação de um Aero Club na cidade, noticiada em jornais do Rio de Janeiro, iniciativa que, cremos, não foi avante. Apesar da duração efêmera, a pista entra para a História da cidade como primeiro local de pouso e decolagem de aviões, ainda que de pequeno porte.

    Na foto que ilustra a matéria, da 1ª Turma de Aviadores do Corpo de Aviação da Marinha, o Tenente Paulo Drummond, assinalado por uma seta.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Instalação do município de Lima Duarte


    As primeiras autoridades municipais de Lima Duarte tomaram posse em 29 de dezembro de 1884, três anos após a criação do município.Conforme o Decreto Regencial de 13 de Novembro de 1832, cabia ao Presidente da Câmara do municipio de origem do distrito emancipado a sua instalação.

    

Antonio Carlos Ribeiro de Andrada.
Na foto, sentado no canto inferior direito,
ao lado de sua esposa.
1895


Como pertencíamos a Barbacena, coube ao Agente Executivo Municipal e Presidente da Câmara de Barbacena Dr. Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, também chamado Antonio Carlos III, (não confundir com seu filho Antonio Carlos,que governou o Estado de Minas Gerais na década de 1930), instalar nosso municipio. Antonio Carlos desceu de Barbacena, acompanhado de seu secretário Cristóvão Colombo e comitiva, e veio ter ao Rio do Peixe, agora cidade de Lima Duarte.

    A ata de instalação do municipio, preservada na Câmara Municipal de Lima Duarte nos dá os detalhes desta solenidade, que aqui resumimos.

    O presidente da Câmara de Barbacena abriu os trabalhos no Salão Nobre do Paço da Câmara, na presença dos vereadores eleitos e grande massa popular. Inicialmente, declarou aberta a sessão, convidado para secretario ad hoc Cristóvão Colombo. Em seguida, declarou em voa alta que tendo sido criado pela Assembleia Provincial o Municipio do Rio do Peixe, vinha em cumprimento à Lei, ouvir o juramento e dar posse aos vereadores eleitos para compor a Câmara do novo município, lavrando o auto de instalação.

    Em ato contínuo, ordenou ao secretario que lesse a ata da apuração da eleição dos vereadores, procedendo à chamada dos mesmos, os quais, um a um, punha a mão direita sobre o Livro dos Santos Evangelhos e prometiam em nome de Deus, bem servir ao cargo de vereador do município.

    Foram os primeiros vereadores do Rio do Peixe, eleitos em 07 de setembro de 1884, os senhores:

Tenente Coronel João de Deus Duque

João Antonio de Paiva

Manoel José Rodrigues

Manoel Antonio de Almeida Pires

Felício José de Oliveira

Tenente Coronel Joaquim Carlos de Paula

Capitão Manoel Victório Nardy.

    Em seguida, deu posse aos sete primeiros vereadores, os quais escolheram para primeiro Agente Executivo e Presidente da Câmara o Tenente Coronel João de Deus Duque, o qual procedeu em seguida, a nomeação dos primeiros funcionários municipais, bem como a arrecadação dos impostos municipais, antes enviados à Barbacena.

    A ata de instalação do município é importante documento de nossa História e deve ser conhecida de todos os lima duartinos.

    A primeira Câmara Municipal é bem representativa da sociedade de Lima Duarte no final do século XIX: seus componentes, todos proprietários rurais e agronegociantes, representavam as forças produtivas da economia local, ainda hoje baseada na agropecuária e comércio.

    Tal composição da Câmara permanecerá durante até a primeira metade do século XX, alterando-se significamente somente após 1950, quando o “urbano” finalmente começa a prevalecer sobre o rural, gerando o panorama politico que vemos hoje, com bem menos representação da classe rural.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

A República em Lima Duarte

    A notícia da Proclamação da República e do banimento da Familia Imperial, em 15 de Novembro de 1889, no Rio de Janeiro, demorou alguns dias a chegar a Lima Duarte. Naquela época, os Correios, em lombo de mula, passavam de cinco dias e cinco dias na cidade, fazendo com que as notícias chegassem sempre atrasadas.

    

Proclamação da Republica
Henrique Bernadelli

Confirmados os fatos pelos jornais, alguns cidadãos logo se manifestaram e convocaram a Câmara Municipal, que em caráter extraordinário, se reuniu no dia 23 de novembro de 1889, afim de deliberar sobre o fato, aderindo unanimemente à nova forma de governo.

       O povo, acompanhando a banda de Música Sagrado Coração de Jesus, invadiu o Paço da Câmara, portando bandeiras, estandartes e flâmulas de cores e símbolos republicanos, esperando ansioso pela Proclamação de Adesão à Republica, feita pelo Secretário da Câmara.

    Este proclamou a adesão do Município de Lima Duarte à nova forma de governo, disto fazendo comunicação ao Governdor do Estado de Minas ao que a população respondeu com vivas à Republica, ao Governo Provisório, ao governador de Minas e à Camara Municipal.

    A banda, arrematando os vivas, tocou A Marselhesa, enquanto todos os presentes assinavam a ata. Discursaram dentre outros, o Capitão Manoel Antonio Duque e o Vigário Padre Pedro Nogueira.

    Finda a cerimônia, saem banda, povo e vereadores em passeata, parando defronte a várias casas de ilustres republicanos, como a casa do Delegado de Polícia, Manoel Duque, Carlos Baumgratz, Manoel Caixeiro e Dr. Vieira Pinto, o qual discursou, saudando

    Da parte do povo, animado pela Marselhesa reiteradas vezes tocada pela banda, irrompiam vivas ao governador de Minas, Cesário Alvim, Bias Fortes e outros. O destacamento do Corpo de Polícia de instante a instante dava uma descarga de tiros de fuzil e de todos os ângulos da cidade ecoavam salvas cuja estampidos aenchiam os ares.

    Mas a festa ainda estava incompleta! O principal líder da cidade, Comendador João de Deus Duque, republicano de longa data, estava já idoso e doente. Incapacitado de comparecer, festejava solitário em sua fazenda no Bom Retiro. A população, solidária, juntou-se à banda, Vigário, Vereadores e Corpo de Policia e partiram todos rumo à fazenda, numa caminhada de dois quilometros.     Lá chegando, em meio a vivas, foguetes, tiros de fuzil e muita música, saudou o velho chefe, em nome do povo, o Vigário Pedro Nogueira, tendo também discursado o escrivão da Coletoria e o professor publico.

    João de Deus Duque, emocionado, agradeceu a presença de todos, e manifestou sua alegria pelo fato de que a vitória republicana tenha sido feita com ordem, prudencia e dedicação, conclamando todos os cidadãos para que ajudassem com o que estivesse a seu alcance afim de se obter a paz, a união e a fraternidade, lamentando não poder estar com o povo pelo estado precário de sua saúde.

    A passeata retornou à cidade às 8 horas da noite. As festas prosseguiram até o feriado do dia 8 de dezembro, encerrando com te Deum na Igreja Matriz, dirigido pelo republicano Vigário Padre Pedro Nogueira.

               Assim começou a República em Lima Duarte!

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

03 ou 30 de ourubro?

 


Independência, autonomia ou apenas mudança de status?

    Quem nasceu primeiro: o ovo, ou a galinha? Apesar da confusão mental causada pela idéia de ser impossivel ter havido uma galinha, sem que houvesse um ovo, é mais inteligente que primeiro um organismo se componha para depois estabelecer sua forma de reprodução.

    Logo, indiscutivelmente se originou o ser, que buscou se reproduzir…

    Pela mesma forma, ocorre com as povoações.

    Na época em que o distrito do Rio do Peixe buscava sua emancipação de Barbacena, no final do século XIX, o Império do Brasil mantinha a organização política herdada de Portugal. Por essa organização, apenas as grandes aglomerações urbanas, dotadas de muitas ruas, edifícios, expressivo comércio, sede de bispado ou função administrativa, tinham o título de cidade, como Salvador (primeira cidade do Brasil) Rio de Janeiro, Paraíba( atual João Pessoa- PB), São Cristóvão – SE, Natal-RN, São Luís – MA, Belém-PA e Recife-PE. As demais povoações sedes de munícipios eram todas designadas como Vilas, muitas delas sendo até capitais de capitanias e províncias.

    Somente em 1823, por um decreto Imperial, todas as vilas capitais de província puderam ser chamadas de “cidade”, caso de Ouro Preto, que foi até esse ano uma vila, a Vila Rica, capital da capitania e província de Minas Gerais. Mariana foi elevada a cidade simplesmente por que nela morava o bispo, e um bispo, como Principe da Igreja, não poderia morar numa vila…

    Algumas vilas foram honradas pelo Imperador com o título de cidade, como forma de distinção, caso por exemplo de Barbacena, designada por Dom Pedro I como “Nobre e Mui Leal Cidade de Barbacena”, por sua fidelidade ao Imperador. Apesar disso, as vilas tinham suas Câmaras Municipais, autonomia administrativa e tributária, sendo cabeça de distrito, as vezes com grande area territorial. Muitas vilas eram sedes de Comarca, com estabelecimento de toda a estrutura judiciária, caso das vilas de Barbacena e Rio das Mortes (São João del Rei). Assim, por exemplo, a vila de Santo Antonio do Paraibuna se separou de Barbacena, em 1850, ganhando somente seis anos depois um titulo de cidade, por seu desenvolvimento.

Com o Rio do Peixe, não foi diferente!

    O distrito buscou na Assembléia em Ouro Preto sua autonomia administrativa e desmembramento de Barbacena, obtendo vitória nessa luta no dia 03 de outubro de 1881, pela Lei Provincial Mineira número 2.804. A sede do novo município era a Vila do Rio do Peixe, que apesar de não ter sido instalado, já havia sido criado por lei, existindo juridicamente.

    A confusão das datas é gerada aqui. Um atraso na instalação do município, fez com que demorassem três anos para sua instalação. O Presidente da Câmara de Barbacena, a quem por lei cabia instalar o novo município dando posse aos primeiros vereadores, retardou ao máximo a instalação, alegando motivos vários, todos sanados pelas lideranças riopeixenses.

    A pendenga só se encerra em 30 de outubro de 1884, quando finalmente os riopeixenses aceitam mudar o nome de sua vila para Cidade de Lima Duarte, homenageando o sogro do Presidente da Câmara de Barbacena, que, lisongeado, vem e instala finalmente o município em 29 de dezembro de 1884 !

    Vale lembrar que alguns municípios comemoram a data de sua instalação, o que também tem sentido lógico, pois passam a existir de fato nesta data. Em resumo: sem correr risco de erro, poderíamos comemorar o 03 de outubro de 1881(emancipação de direito) ou o 29 de dezembro(instalação de fato). Nunca o 30 de outubro, que foi apenas uma mudança de status, aliás bem politiqueira...

    Somente em1938, TODAS as sedes de munícipio foram elevadas à categoria de Cidade, fazendo com que muitos pensassem que era assim desde o início.

    Apesar de no brasão municipal constarem as datas 1781: abertura do territorio à povoação por Dom Rodrigo e 1881: emancipação de Barbacena, houve quem considerasse a data de 30 de outubro 1884, sabe-se lá por que motivo, gerando inclusive uma Lei Municipal criando o Dia do Aniversário da Cidade, em 1976.

    A pesquisadora Maria de Lourdes Sacramento combateu ardorosamente este erro, sendo seus apelos ouvidos pelo então vereador Evandro Fontes de Oliveira, que encampando a idéia, transformou-a em projeto de lei, que aprovado, corrigiu uma distorção histórica de anos.

    A lei, aprovada, e que está em vigor, é a seguinte:


Lei nº 1.023

Altera a data comemorativa do aniversário da cidade.

A CÂMARA MUNICIPAL DE LIMA DUARTE APROVOU, E EU, PREFEITO MUNICIPAL, SANCIONO A PRESENTE LEI:


Art. 1º - Fica o Prefeito Municipal de Lima Duarte, autorizado a celebrar como data oficial do Aniversário de Lima Duarte o dia 03 de outubro de cada ano, que será considerado Feriado Municipal.

Art. 2º - Revogam-se as disposições em contrário, especialmente a Lei 527 de 16 de setembro de 1976.

Art. 3º - Entra esta Lei em vigor em 1º de janeiro de 1998.

Dada e passada na Secretaria da Prefeitura Municipal de Lima Duarte, aos 10 dias do mês de dezembro de 1997.

Sancionada por Ney Carvalho de Paula - Prefeito Municipal


    Apesar da incorreção do texto da lei, o 03 de outubro é a data da emancipação do municipio e não o aniversário da cidade….

    Lembra-se do ovo e da galinha? A cidade, no nosso caso, só poderia vir se antes houvesse a vila e o município. Logo, o que vem primeiro é que deve ser comemorado.

    Por estes “erros”, tivemos um Centenário aos 103 anos….

    Mas aí já é outra estoria….

terça-feira, 6 de setembro de 2022

O Sete de Setembro em outros tempos

 

Comemorações da Independência em Lima Duarte em 1922 e 1936.


    A comemoração do Sete de Setembro fez parte das tradições de Lima Duarte durante muitas décadas, sendo festivamente celebrada com as particularidades de cada época.

    A título de curiosidade reproduzimos a seguir, duas matérias jornalísticas, retratando as comemorações do Sete de Setembro em dois anos: 1922 e 1936.

    Em 1922, o Brasil comemorou o 1º Centenário da Declaração da Independência, festejando o ato do Príncipe Dom Pedro, às margens do riacho Ipiranga.

    As cidades, por todo o país, festejaram a data, cada uma com suas particularidades. Em Lima Duarte, não foi diferente.

    A sociedade se organizou, e manifestou seu contentamento e alegria pela data.

    A única fonte de informação sobre os eventos aqui promovidos, está presente na imprensa carioca, representada pelo jornal A Noite, que tinha grande circulação em Lima Duarte e região, repercutindo aqui as notícias do Rio de Janeiro (então Capital Federal) e as do Brasil.

    Assim noticiou, o jornal A Noite, na edição de 09 de setembro de 1922, o Centenário da Independência em Lima Duarte:


Foi tocante a comemoração do Centenário nesta localidade.Às primeiras horas da manhã do grande dia, uma banda de música, acompanhada doTiro de Guerra 408, percorreu a cidade.

Ao hastear a bandeira, a banda percorreu novamente as ruas, depois de ter prestado homenagens, tocando o Hino Nacional.

Os alunos do Grupo Escolar fizeram passeata, falando por esta ocasião o Dr. Olavo Werneck e o farmacêutico Sr. José Augusto. Ao anoitecer, o Dr. Raul Fernandes, pastor evangélico e o bacharelando J. Nicolau Lasytearan e Augusto Schawab, na praça da Liberdade, proferiram discursos, sendo aplaudidos pelo povo.

O encerramento dos festejos foi solene, havendo sessão cívica na sede do Tiro de Guerra 408.


    Outro Sete de Setembro que fez história foi o de 1936, cuja programação segue abaixo, patrocinada e divulgada pelo jornal lima duartino O Progressista, em sua edição de 06 de setembro de 1922

Por iniciativa de nossas agremiações educacionais e sociais e sob o patrocínio de O Progressista, Lima Duarte festejará amanhã, com raro brilho, o grande Dia da Independência Brasileira.

A comissão encarregada do programa convida a todos os lima duartinos para assistir a todas as partes, dando às mesmas o maior realce possível, nas horas marcadas:


PROGRAMA

Dia 7 de Setembro:

6 hs. Alvorada, salva de Tiros e hasteamento da bandeira pelo Tiro 408.

8hs. Desfile do Tiro 408, sob o comando do Sg. Instrutor Jorge José dos Santos e saudação do soldado à Bandeira, pelo professor Raul Fonseca.

9h30: Grande corrida da Cidade, prova patrocinada pela Prefeitura Municipal. Ponto de chegada na Parada EFCB.

13hs: Atletismo no Campo local, pelo Tirode Guerra 408, com o programa:

1ª prova – Cap. Braga: salto em altura;

2ª prova - Ten. Coelho: Salto em distância;

3ª prova – Sargento Segóbia: vivacidade;

4ª prova – Dr. Olavides: corrida de saco;

5ª prova – Dr. Frágolo: corrida de estafeta;

6ª prova – Sargento Jorge: luta de travesseiros;

7ª prova – Tenente Carraça: cabo de guerra;

14hs: Amistosa partida de foot-ball entre o combinado Parque Azul e Guarany F.C. de Cachoeira;

18 hs. Solene arriamento da Bandeira, no quartel do Tiro de Guerra 408.

18h30: Torneio misto de pin pong no tablado do Parque Azul;

20 hs: Sessão cívica no Ribalta Club:

Programa:

1. Musica

2. Abertura da sessão;

3. Hino à Bandeira, por alunos do Grupo Escolar;

4.Entrega de prêmios;

5. Declamações por alunos do Grupo

6. Música;

7. Discurso de apresentação do orador, pelo dr. Olavides de Oliveira;

8. O Dia da Pátria, conferência pelo ilustrado Prof. Luiz Milazzo, de Juiz de Fora;

9. Hino 7 de setembro, por alunos do Grupo;

10. A Patria, poesia pela senhorita Diva Duque;

11. Hino Nacional, por alunos do Tiro de Guerra 408;

12. Encerramento da Sessão.

21 hs. Elegante sarau dançante no pavilhão de Festas do Parque Azul;

Os festejos serão abrilhantados pela Corporação Musical Santa Cecília, sob a regência do professor Sebastião Ribeiro.

A comissão encarregada da execução do programa pede rigorosa observância dos horários, para não haver desordem na execução do mesmo


    Ao longo dos anos, a data seguiu sendo comemorada com solenidades, desfiles de personagens históricos, encenações, provas de atletismo e desfiles cívicos e escolares, há algum tempo desaparecidos.

    Junto com eles foram-se as bandas, as fanfarras, o Tiro de Guerra, os inflamados discursos, os carros alegóricos, as fanfarras escolares, os vistosos uniformes, as balisas…

    No palco dos desfiles, jaz agora um calçadão frio e solitário, bem o oposto da rua feliz e movimentada de outrora.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Ruínas do Pico do Pião

 Uma capela no alto da serra.


    Chegar ao Pico do Pião, na Serra de Ibitipoca, traz agradáveis surpresas. Além do frescor dos ares e da vista que encanta, pode-se ver ali, em ruínas, um altar e um pavimento em pisos hidráulicos, restos do que foi um dia, uma bela capela.

    O local, ainda hoje de difícil acesso, faz-nos pensar nos motivos que levariam pessoas a erguer um templo naquele local, ermo e solitário, batido pelos ventos, longe de tudo e mais ainda, por que teria sido abandonada, entrando em ruínas?

    O projeto de se erguer uma da capela no Pião, surgiu nas primeiras décadas do século XX, quando a Serra Grande (nome regional dado à atual Serra de Ibitipoca), começa a ser pleiteada para sediar um hospital para tratamento de tuberculosos.

    Até ali, a Serra Grande era considerada Patrimônio da Santa, ou terra da Igreja, utilizada como pasto e para extrativismo de capim para colchões, macelas e plantas medicinais, de uso comum de todos os ibitipocanos.

    O Estado de Minas Gerais, em vista do empenho da Liga Mineira contra a Tuberculose, tratou de verificar a posse das terras, verificando a inexistência de documentação de posse por parte da Igreja, considerando-as terras devolutas, apesar de no senso comum, as terras integrarem o Patrimônio da Santa.

    A solução encontrada pela Igreja foi garantir a posse das terras, dando-lhes uso. Em 15 de agosto de 1925, é celebrada no Pico do Pião a primeira missa, diante de um cruzeiro e altar improvisado. Surge dai a idéia de erguer um templo no local, como forma de garantir a posse das terras para a Igreja.

Francisco Borges de Medeiros
e Gertrudes da Silveira Almeida
    Com aval do Bispo de Juiz de Fora, Dom Justino José de Santana, e sob o comando do Pároco de Bias fortes, Pe. Otávio Rodrigues Pereira, um grupo de fazendeiros, se incumbe da empreitada, chefiado pelo fazendeiro Francisco Borges de Medeiros. Estes constroem então uma capela, que foi denominada de Capela do Senhor Bom Jesus da Serra Grande ou Bom Jesus do Pião, benta em 10 de Agosto de 1932, pelo Padre Henrique Guilherme da Silva, Pároco de Lima Duarte. Padre Henrique torna-se até sua morte um entusiasta das festas e celebrações no local, a ponto de a capela ser conhecida popularmete como Capela do Padre Henrique.

    Ao longo dos anos seguintes, a capela seria local de celebrações e afamadas festas, com leilões e barraquinhas, animadas por bandas de música de Bias Fortes, Santa Rita de Ibitipoca e Lima Duarte, reunindo devotos de toda o entorno da Serra Grande.

    Seguindo em seu intento, o Governo do Estado de Minas Gerais acabou vencendo a disputa judicial, garantindo a posse das terras, reconhecidas como devolutas.

    A capela perde então seu objetivo real, agravado com o falecimento de Padre Henrique em 07 de agosto de 1937, entrando em abandono e estado de degradação e ruína.

Em 1940, estando totalmente arruinada, líderes da comunidade de Mogol, providenciaram o desmonte do restante do telhado, porta e paredes, deixando apenas o piso hidráulico e o altar em alvenaria. Com os tijolos removidos, ergueram no povoado de Mogol, na praça em que se localiza a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, logo acima do coreto, uma pequena ermida, onde entronizaram a imagem do Bom Jesus, que ali permanece até os dias atuais.

  

Ruínas da capela no pico do Pião.

 Com a escolha de Campos do Jordão para a construção de uma grande estância para tratamento de tuberculosos e a posterior invenção da penicilina, a tuberculose é controlada. As terras da Serra Grande, agora do Estado , comporiam mais tarde a Fazenda do Ibitipoca, núcleo originário do Parque Estadual do Ibitipoca, inaugurado em 1973.

    As ruínas, desde então servem de poleiros para fotos e selfies, um triste fim para um local de tanta fé, devoção e tantas festas.



sexta-feira, 10 de junho de 2022

O deputado do trem

Francisco Valadares, o deputado do trem.


Desde 1873 cogitava-se da implantação de um ramal ferroviário em terras lima duartinas. Porém, somente em 1911, teria início a construção efetiva do ramal, sendo inauguradas em 1914, as duas primeiras estações do trajeto, Penido e Igrejinha.

As constantes paralisações das obras, motivadas por pressões contrárias por parte dos políticos paulistas e fluminenses, bem como de cidades vizinhas, fizeram surgir na imprensa e no próprio meio político, muitos defensores dos interesses dos lima duartinos e dos mineiros.

Dentre eles, destaca-se Francisco Valadares.


Francisco de Campos Valadares,
nasceu aos 24 de abril de….. em Pitangui (MG), filho de Benedito Cordeiro de Campos Valadares e de Maria Luísa Valadares, sendo bisneto de Dona Joaquina do Pompéu, célebre líder política do interior do estado de Minas Gerais.

Bacharel de Direito, exerceu por longos anos a advocacia, exercendo também a função de Promotor de Justiça em Juiz de Fora e Rio Pomba. Casou-se aos 07 de janeiro de 1901 com Constança Vidal Barbosa Lage Valadares (Constança Valadares) e não teve descendência. Em Juiz de Fora, participou ativamente da vida da sociedade, tornando-se diretor-gerente do Clube Juiz de Fora, conselheiro da Santa Casa de Misericórdia, redator chefe do Jornal do Comércio, presidente da Academia de Comércio e do Clube de Esgrima, Tiro e Ginástica. Também nessa cidade participou da Companhia Central de Diversões, primeiro passo para a construção do Cine-Teatro Central, já que era de sua responsabilidade recolher verbas que seriam repassadas à Companhia Pantaleone Arcuri, incumbida da construção do prédio.

Seguindo a tradição de sua família e atendendo a pedido dos cidadãos, ingressou na política sendo eleito deputado estadual em 1903, permanecendo até 1912, quando é eleito deputado federal por Minas Gerais. Por sua atuação forte e perseverante em prol dos projetos relacionados a Juiz de Fora e região da Zona da Mata, foi reeleito para as quatro legislaturas seguintes, permanecendo como Deputado Federal por Minas Gerais até outubro de 1930, quando a Revolução comandada por Getúlio Vargas extinguiu todos os órgãos legislativos do país.

Assumindo seu primeiro mandato em 1912, tomou a si a defesa da continuação das obras do Ramal de Lima Duarte, paralisadas desde 1914 em Penido. Já no final do ano, consegue a consignação de verbas no Orçamento da União, que ainda assim permaneceriam paralisadas, sendo retomadas efetivamente apenas em 1921.

Seguiu combativo e assíduo à tribuna da Câmara Federal, onde discursou reiteradas vezes em favor da continuidade das obras, promovendo o debate em torno da importância da obra para Minas Gerais e o Brasil.

Na Imprensa, assinou vários artigos e concedeu muitas entrevistas sobre o ramal de Lima Duarte, esclarecendo dúvidas e demonstrando, reiteradas vezes, a importância da obra para a Zona da Mata, Minas Gerais e o Brasil.


Resultado da luta do deputado Francisco Valadares, a ferrovia avança as obras e em 1923 as pontas dos trilhos atingem a localidade de Várzea do Carmo, atual Valadares, município de Juiz de Fora.

A inauguração da estação, ali erguida em terrenos doado pelo Coronel Camilo Guedes de Morais e às suas expensas, é realizada em 1º de Maio de 1924, recebendo o nome oficial de Engenheiro Navarro, que alguns dias depois, em 23 de maio do mesmo mês, é transferido para uma das estações recentemente inauguradas no ramal de Montes Claros. Com isso, a estação volta a ser designada como Várzea do Carmo, até que em agosto de 1924, uma portaria do Ministro da Viação determinou que fosse denominada oficialmente de Valadares, em homenagem ao deputado Francisco Valadares.

Ao saber da homenagem o deputado Francisco Valadares telegrafou imediatamente ao Ministro Francisco Sá, em 08 de agosto agradecendo a homenagem e consideração, mas solicitando que este desse à estação o nome de Camilo Guedes, como havia sugerido ao Ministro, já que este era o desejo da população e o mais justo, uma vez que o coronel era líder inconteste e total merecedor da homenagem.

Respondendo ao telegrama o Ministro Francisco Sá considerou que embora merecida a homenagem ao Coronel Camilo Guedes, considerava seu o direito de perpetuar na estação ora inaugurada o esforço infatigável do deputado Valadares como representante da região, de cujo esforço, pela realização daquele e outros melhoramentos que reclama, ninguém, melhor do que ele, podia dar sincero testemunho.

A Câmara Municipal de Lima Duarte também havia de manifestado a favor da homenagem ao deputado Valadares, manifestando assim seu agradecimento pelo empenho e dedicação pela continuidade das obras da ferrovia.

Assim a estação da localidade de Várzea do Carmo passou a ser denominada Valadares, nome este que passou a designar a povoação que se formou em redor da estação e que se desenvolveu, atualmente sede de distrito do município de Juiz de Fora, situada às margens da BR 267, entre Orvalho e Penido.

A atuaçao do deputado Valadares seguiu forte e incisiva, garantindo recursos que permitiram a tão sonhada chegada da primeira locomotiva à cidade de Lima Duarte em 08 de dezembro de 1925.

A pequenina estação ai inaugurada alguns meses depois, em 1º de março de 1926, foi chamada Parada Matosinhos, sendo depois oficialmente denominada Parada de Lima Duarte e estação Diocleciano Vasconcelos.

A rua que dá acesso à Paradinha recebeu a denominação de Rua Francisco Valadares, que conserva até então.

Uma justa homenagem a quem tanto fez pela implantação da nossa ferrovia.

Francisco Valadares faleceu em Juiz de Fora em 14 de novembro de 1933.